Perseguição a carro

Existem muitos carros no Rio de Janeiro.

Existem muitos carros, mas há apenas um que conheço intimamente, fora o meu. Conheço seu interior, o acolchoado do banco, seu cheiro de maresia e o chão cheio de areia. O banco de trás com toalha molhada, o vidro fumê. O espaçoso porta-malas onde me entreguei. É um carro grande; um Renault Duster. Sei reconhece-lo na rua por seu porte, por ser preto-fosco. É um carro passionalmente memorizado por mim. Lembrança refrescante, fotografia da mente bem morna e cálida, cheia de doces e perfumes.

Vou à rua. Lá, estou no banco do carona, com meu pai dirigindo. Não tenho a maestria diante do volante, por isso estou sempre naquele banco. Olho para os lados sempre que estou ali, sempre à postos, sempre esperando pelo Renault Duster. Busco e procuro, sempre me sobressaltando com cada veículo que se assemelha àquele. Nunca o é, contudo.

Certa vez eu voltava da faculdade. Relaxada, pois ninguém que conheço pegaria aquele caminho. O calor está infernal, como sempre o é no Rio, e deixo a janela aberta. Estou com meus óculos de grau, o cabelo preso em um rabo-de-cavalo para que o suor não o faça com que grude em meu pescoço. Estou pensando nele. Em como eu o amo, em como amei a forma com que nos vimos pela última vez. Penso em seu cheiro, banho-me na sua pele de novo, umedeço meus lábios nos seus como outrora, deixo-me levar pela sensação do passado recente, já tão distante, pois anseio por mais. Finalmente, passamos pelo retorno que pega a praia.

Olho para o lado.

Está o Renault Duster.

Arregalo os olhos, bem assustada, enfio-me no banco o mais recolhidamente possível. Bisbilhoto-o novamente para confirmar. Dentro do carro, com vidro da cor da lua nova, vejo parcamente uma pessoa dirigindo. Não vejo sua face; apenas a lateral de seu corpo. É certamente um homem; um garoto. Usa uma blusa do Brasil. Já o vi diversas vezes com a camisa do Flamengo. Por que não uma do Brasil? E, além do mais, o retorno passava pela praia…

Meu coração se acelera. Meu pai também o faz com o carro. Voamos em direção à Avenida das Américas, e deixamos o Renault comendo poeira. De tanto virar a cabeça para trás, em busca de um resquício do carro de meu amor, meu pai me pergunta o que me aflige. Respondo-lhe que nada, um tanto quanto grosseiramente. Chego à casa. Meu coração se fecha, angustiado. Fazia tempo que não o via. E fará mais tempo ainda para que o veja novamente.

Existem muitos carros no Rio de Janeiro, e somente um é o que eu procuro. Depois desse encontro fatídico, que me foi uma perversa amostra da visão de meu amado dada a mim pelo destino cruel, eu, que já antes receava vê-lo pelas ruas, agora o faço constantemente, ainda mais fervorosamente. Cada carro que passa ao lado. Cada veículo negro que corre próximo à minha janela. E também próximo à janela de meu pai, e atrás, e na frente.

on-the-road-movie
Imagem: On the Road (2011)

Os transeuntes também são meu foco. Será que ele anda nas mesmas ruas nas quais eu tendo a passar? Dissera-me que, antes que o apartamento que dividiria com a namorada estivesse pronto, estava morando em meu condomínio. Será que já foi morar com ela? Ou estaria ainda perto de mim, embora tão longe?

Não posso repousar. Não posso descansar. Ele pode estar em qualquer lugar, e eu o procuro, procuro e procuro, e não há pistas. Gostaria de saber onde está. Não posso procura-lo diretamente. Ela poderia saber de minha existência. Não quero destruir seu relacionamento, amargurar sua vida – afinal, é ela quem o faz feliz na maior parte de seu tempo, embora eu o faça de mês em mês, de dois em dois meses ou de três em três.

Existem muitos carros no Rio de Janeiro.

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