Em um clube noturno, eu dei adeus a uma dançarina

Adentrei no clube noturno com nada nos bolsos, a não ser as chaves do carro. Tão logo pus os pés lá dentro, eu a avistei: estava no pole central, dançando como uma depravada. Usava uma peruca de longos cachos carmins; escondia os curtos fios castanhos e lisos, para que pudesse se tornar a versão mais sensual de si mesma. Os seios, pequenos, estavam à mostra, e apenas dois adesivos, dourados e cintilantes, cobriam os mamilos delicados. A noite já estava alta, de modo que havia retirado as calças destacáveis e estava apenas com uma calcinha fio-dental, cor de cobre. A pele dela, pálida como lua cheia pertencente à noite a qual estava tão acostumada, estava coberta por adesivos de lantejoulas prateadas e douradas. No rosto, apesar de se mover rápido, eu notei que havia uma maquiagem pesada; o brilho acastanhado de seus olhos era destacado por uma sombra verde-escura, e os lábios haviam sido pintados em um tom de cor-de-rosa arroxeado.

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Ela me viu. Cessou os movimentos por um instante, e como um filme em câmera lenta, eu a vi emitindo um suspiro surpreso, a mecha de cabelo falso que lhe caíra sobre os lábios esvoaçara sob a influência de seu susto. Rapidamente, ela recompôs a compostura (ou o que restava dela) e tornara a dançar sensualmente para cinco homens de terno que se sentavam ao redor do pole. Desceu do queijo e se sentou sobre o colo de um dos desconhecidos, rebolando, e os amigos do velho se empertigaram, riram e aplaudiram. Ela se levantou, mandou-lhes um beijo e uma piscadela e foi em minha direção, próxima à porta da entrada.

— O que veio fazer aqui, André? — Ela parecia preocupada. Sua testa estava úmida de suor pelo esforço da dança.

— Precisamos conversar, Leonor.

— Aqui meu nome é Lúcia — corrigiu-me. Apesar da fala pronta, Leonor franziu o cenho, as delicadas sobrancelhas se unindo em confusão. Contudo, havia um brilho negro refletido em seus olhos, e ela sabia, bem no fundo, o que eu havia ido fazer lá. Tencionei tomar sua mão para mim, mas ela me impediu:

— Toques são proibidos. Aqui, você é só mais um cliente.

Assenti. Em seguida, deixei que ela me guiasse pelo salão de dança, até uma cabine onde eram dadas demonstrações particulares dos talentos das mulheres que ali trabalhavam. Sentei-me sobre o sofá acolchoado e ela, sobre o queijo, cruzando as pernas e repousando o rosto com uma das mãos. Deus, ela era muito linda, e muito doce. Ainda quando a via, sabia a razão pela qual havia me apaixonado por ela, ao esbarrar em Leonor em uma cafeteria. Ela carregava dúzias de livros da faculdade, e eu levara meu computador para trabalhar em um manuscrito. Os livros dela haviam caído no chão, e quando me ergui para ver seu rosto enquanto a ajudava, me apaixonei para sempre. Sim, amo-a até hoje. Até nesse momento final. É que às vezes, somente o amor não basta.

— Então, Leonor — Comecei a dizer. Era preciso muita coragem para as próximas palavras.

— Diga-me. — O timbre de sua voz era trêmulo e instável. Ela sabia, ela sabia, ela sabia.

— Eu te amo, mas…

— Sempre que minha mãe me diz que algo bom é dito seguido de um ‘mas’, é para se apagar tudo o que fora dito antes, porque de nada vale.

— Eu te amo, de verdade.

— Tudo bem, corte a baboseira. Você veio terminar?

— Como sabe?

— Tenho o percebido nas últimas semanas. Frio, distante. Não são os ciúmes, por eu trabalhar aqui?

— Não, sabe que sei diferenciar seu trabalho de você e nosso relacionamento.

— Então, o que há?

— Um relacionamento é como um tubarão. Quando para de nadar e seguir em frente, ele morre.

— Você está citando Woody Allen?

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Emiti um suspiro cansado.

— Não acredito que está terminando comigo baseado em um filme.

— Ah, Leonor… Não quero brigar.

Ela respirou fundo.

— Sabe o nosso primeiro encontro? — Questionei.

— Aquele na praia, à noite?

— Sim, esse.

— O que tem?

— Eu ainda sinto a maresia em seus cabelos, de quando fomos à minha casa depois da praia. E do chão cheio de areia, e dos lençóis brancos, e das pombas arrulhando pela manhã. Você tentou fugir antes que eu despertasse, se lembra? Eu não deixei. Acho que já te amava. Sim; eu te amei desde que vi seu rosto.

Àquela altura, lágrimas ameaçavam cair de seus olhos. E dos meus também.

— Eu me recordo — Disse Leonor, embargada. — Eu demorei a te amar, sabia? Acho que foi quando… Quando te contei a verdade sobre meu trabalho e você aceitou. Sabia que podia confiar em você. Me diga, André, onde foi que nós erramos?

Erramos em nos amar demais.

Ela assentiu. Cobriu o rosto entre as mãos e deixou que os soluços lhe subissem à garganta. Em um instinto, me sentei ao lado dela e a abracei. Ela pranteava tanto, tanto, tanto… Apertava minha blusa com as mãos, como se quisesse cavar um caminho por dentro de minha pele e se fundir a mim. Eu gostaria disso. Eu deixaria Leonor entrar. Porém, não era mais o certo a se fazer.

— Nós nos privamos de nós mesmos — Continuei. — Deixamos de fazer o que gostávamos para agradar o outro. Deixamos de viver para alimentar um amor. Até quando isso é saudável, Leonor? Você recusou um trabalho de verdade para que não nos mudássemos para outro estado, porque meu trabalho era aqui. O quanto isso me torna egoísta? Não; é preciso te deixar crescer.

— Eu entendo — Leonor se afastou de mim, enxugando a maquiagem borrada do rosto em formato de coração. — É verdade. Também errei quando… Quando disse que não gostaria que tivéssemos um filho. Você queria tanto, mas… Não, não era o momento, mas…

— O corpo é seu, a decisão é sua.

Ela começou a me estapear.

— Pare, pare, pare de ser gentil! Pare de me fazer ama-lo ainda mais!

Segurei-a com firmeza pelos pulsos.

— Leonor. — Minha voz era um alerta.

— Isso, é disso que preciso — Esbravejou. — Seja rude, seja um péssimo amante!

Soltei-a imediatamente.

— Eu a amo, Leonor, mas preciso ir. Nunca se esqueça de que a amo; mas, também, aproveite a vida. Cada segundo. Em nossa homenagem, por nosso amor. Encontre alguém ou não, tenha filhos ou não. Na segunda-feira eu pego meus pertences do apartamento. Vou morar na casa de um amigo por uns meses. Ah, Leonor…

Ela assentiu. Não nos beijamos uma última vez.

Parti, para não mais faze-la sofrer. Parti do clube noturno, parti das danças etéreas de Leonor, e parti, para nunca mais voltar, de sua vida cheia de maravilhas e surpresas. Não, o amor não era suficiente.

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