Uma crônica ordinária

Quando eu era mais nova, antes desses tratamentos, remédios e ida ao psiquiatra, eu tinha toda essa sede de vida. Eu costumava abocanhar o mundo com unhas e dentes, o que eventualmente me levou à loucura. Não que eu esteja reclamando; oh, não – estou simplesmente tentando criar uma explicação para mim mesma sobre mim mesma. Não é o que fazemos todos nós? Tentamos achar uma resposta para tudo? Talvez a resposta seja a ausência de uma.

Quando eu era mais nova, eu não possuía freios, e era livre. Era tão livre em meu alvoroço que me aprisionava nele. Essa dualidade de estado da mente era agonizante, e ao mesmo tempo, extremamente revigorante. Não seriam, os loucos, sãos? Bem, eu falava o que me vinha à mente, lutava pelo que desejava com todas as forças que minhas mãozinhas adolescentes poderiam ter para perseguir alguma cousa, sonhava alto e caía, e então sonhava ainda mais alto, e pouco a pouco, consegui subir a montanha. E caí de novo. Caí na realidade.

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Até mesmo as piores coisas possuem coisas nelas para amá-las. Fonte: Skins (Série de TV britânica)

Aqui, no mundo das letras, no mundo das palavras que bem lê, não falemos de realidade. Realidade é um mundo duro e cruel. É real, afinal. Não há idealizações, e as conquistas já são conquistadas. Não; falemos de poesia. Falemos de arte. Do dom de construir. Do dom do saber fazer. Do dom do compreender imagens, compreender jorros de tinta, compreender conexões entre uma linha e outra, formando cenas em nossas mentes tão absurdamente criativas. Tão absurdamente humanas.

Não somos super-humanos. Não somos seres sobrenaturais. Ainda assim, em toda essa fragilidade, em toda essa casualidade da evolução, ou seu extremo senso de propósito, conseguimos criar a arte. E, para que haja lirismo, há de haver loucura. Chamo de loucura, mas a loucura dita é, em si, plenamente sã. Chamo amor de loucura. Paixão de loucura. Dor de loucura. O ato mais puro do ser humano é loucura. Os gestos e sentimentos mais viscerais. O nosso Id. Somos todos loucos. Alguns, apenas, não conseguem esconder muito bem – como eu não pude jamais ocultar.

Vejo beleza em pequenas, minúsculas gotas de chuva que remanescem após um dia de tempestade, em meio ao sol, resistentes. Vejo humanidade nelas. Não seríamos, todos nós, essas pequenas gotas d’água? Não seríamos, nós, puramente água? Água persistente. Que duram após um dia de chuva, que insistem em viver em meio à escaldante sol amargo, sol cancerígeno, sol da realidade?

Não; falemos de poesia.

Sinto poesia em pequenos gestos de amor. Eu sempre falo de amor. Eu penso amor. Eu sinto amor. Eu ouço amor. Acho que se eu pudesse ser viciada em algo, seria nessa palavra. A-M-O-R. Doce. Love. Amour. Amore. Liebe. Gentil em cada língua. Ritmo suave na ponta da língua; ar que sai com graça por entre lábios – amor. Refiro-me ao amor romântico, dos amantes lunáticos, que entregam sua alma de graça em troca de nada, a não ser… amor.

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Amor, amor, amor. É bom para o quê? Absolutamente nada“. Fonte: Skins (Série de TV britânica)

O amor, em minha humilde opinião, é o gesto mais intenso da loucura. É seu ápice, sua chama. Esse sentimento, para alguns tão mal interpretado, para outros tão bem colocado, é o gatilho do mundo. O gatilho do mundo dos poetas, do mundo das artes, da pena, da tinta, da argila amaciada. E, se é o cerne da arte, é o cerne do mundo. Porque, sem essa sensibilidade, sem essa sede de loucura, o mundo seria apenas algo robotizado, algo sem… Algo cheio de realidade.

Quando eu era mais jovem, eu era ensandecida e louca, sem freios, nem rodeios. Seguia direto rumo ao trilho da poesia. Eu era poesia. Eu era arte. E o que me aconteceu? Cresci, tive de me tratar. Meus sonhos não se encaixavam na realidade. Minha sede de vida não era compatível com a sede de trabalho, de lucro. Eu queria voar. Tudo o que me deram fora uma gaiola.

Apenas peço para que não se esqueçam. Para que não tranquem a alma de outras pequenas poesias personificadas. O mundo precisa de lápis, de curvas, de linhas que formem pensamentos, raciocínios, lógica, ilógica, amor, e muito amor. O mundo precisa de mais amantes. Amantes que se completem. O mundo precisa de irmãos. O mundo precisa de poesia. O mundo precisa de paz. O mundo precisa de mais lirismo. O mundo precisa de nós, criaturas pouco sobrenaturais, mas extremamente extraordinárias em seu complexo de ordinário.

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