A (não tão) louca razão de minha gaiola

Tenho que admitir que tenho alguns sérios bloqueios emocionais. Talvez isso se deva a alguns traumas específicos. Não consigo me abrir facilmente, mas amo com extrema dedicação e sem hesitar. Isso torna tudo muito difícil, já que não posso me expor enquanto um sentimento é nutrido dentro do seio.

Perdi a confiança ao longo de alguns amores e paixões. Já me traíram a confiança diversas vezes, seja com traições, mentiras ou súbitas rejeições. Não é fácil, portanto, eu cair de braços abertos no amante atual. Na verdade, ao mesmo tempo em que meus braços se esticam em sua direção, uma parede cheia de espinhos se posta à minha frente. Não sei se é real ou imaginária, mas está ali: representando todas as minhas paranoias e neuroses, todas as feridas de meu passado, todas as dores que um dia já me consumiram.

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Amar, pra mim, é tão fácil quanto respirar. Confiar em alguém com que me envolvo amorosamente, deixar as palavras saírem de meus lábios sem receios e exibir meus sentimentos com naturalidade, por sua vez, já são outros quinhentos. Peso tudo o que penso e sinto antes de demonstrar. Evito conflitos e me expor em campo aberto. Sei que há predadores, e não posso me dar ao luxo de me mostrar assim, na clareira, à meia-noite.

Infelizmente, eu criei uma gaiola dourada de proteção ao meu redor. Dentro dela, estou livre para sonhar, amar, chorar, sentir tudo como se fosse sempre meu último sopro de vida. É tudo muito intenso, mesmo enjaulado. Sei que, se por algum microssegundo, eu deixasse escapar qualquer um de meus devaneios por dentre as grades, estaria vulnerável. E não quero que me machuquem, que me firam, que me matem, assim como fizeram doutras vezes.

Ansiosamente, espero que alguém tenha a chave de minha gaiola. Eu gosto muito de voar, mas quando olho para baixo e me deparo com a queda, esqueço como funcionam minhas asas e caio. Caindo, eu vou sentindo o vento em minhas penas. Não há ninguém para me segurar, para me proteger. Então, quando finalmente atinjo o solo, por sorte sobrevivo, e sempre foi assim: ferida da queda, retorno para a gaiola.

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