A quarta carta

Ele era a personificação de meus sonhos e desejos. Era tudo o que havia sonhado. Ah, mas como adivinharia? Ele estava morto por dentro! Sua beleza bloqueava-me a visão: não poderia ver a carne putrefata, tampouco suas veias secas ou a ausência de um coração – este havia sido devorado por vermes e moscas, jazendo apenas um buraco negro-amarronzado em seu lugar. Eu havia me apaixonado por uma casca vazia; talvez mais que vazia: uma casca que escondia toda a podridão que um demônio poderia carregar.

Em minhas esperanças mais vãs, dei a ele tudo o que tinha – meu corpo, minha alma, meu amor e meus pesadelos para ele preencher. Deixei que ele abusasse de mim. Que me tomasse para si como posse. Eu me deleitava na sensação de ser escrava dele. Eu queria isso, eu amava isso; essa relação doentia de senhor-serva. Obedeceria a qualquer ordem, eu era mais ele do que eu mesma, eu era mais seus desejos distorcidos do que uma garota com vontades próprias.

Nunca havia amado tanto e, em consequência, nunca havia me entregue de forma tão plena. Pena, doei-me para um vadio. Doei-me para quem jamais compreenderia a essência de um poema ou a beleza das estrelas, quando a lua se retira para descansar. Doei-me para quem desconhece as profundezas que repousam na palavra Amor. Fiz a escolha errada. Infelizmente, hoje tenho de lidar com meus anos perdidos, e também com a inocência que se perdeu, e em seu lugar, agora tenho a desconfiança e o conhecimento sobre as mais doentias malícias dos homens.

Ele sujou meu corpo com suas impurezas. Ele me marcou a pele. Por alguns segundos no tempo curto de minha vida, eu pensei sentir prazer em suas asquerosidades. A luxúria envolvia minha carne. Era como se a única solução fosse encontrar nas imundícies do mundo para poder me sentir a salvo. A salvo de mim mesma e minhas tristezas. De um lado, um vampiro me sugava o sangue, de outro, eu me suicidava. Não havia para onde correr, para onde fugir. Eu estava no limbo. Eu não era eu.

Custou-me muito conseguir achar caminho para cima, para fora da areia-movediça. Custou-me abrir os olhos da alma para enxergar a besta que ele era, que realmente é. Custou-me recuperar a sensibilidade da pele para poder finalmente ver as marcas e cicatrizes que esse amor (Seria mesmo amor?) havia me causado.

Ele era um traidor. Um amante descompromissado. Eu era sua amante mais devota. Jamais poderia dar certo, estava perdendo minhas horas, meus dias e noites, minha vida e minha morte. Como poderia, jamais, tê-lo em meus sonhos, quando se passava de nada menos do que a personificação de todos os meus medos mais profundos? Deve ser por isso que habitava meus pesadelos com tanta frequência, e não os sonhos.

Consegui me libertar antes que ele me aniquilasse de vez. Estou me recuperando, estou encontrando meu caminho no mundo dos vivos. Consigo respirar placidamente de novo, mesmo que o ar ao meu redor ainda esteja cheio de fuligem e pó de ossos. Meu coração pulsa com suavidade, mas em descompasso – ainda é muito cedo para que retorne à sua tão desejada e simples função vital. Estou retornando à vida. Estou vivendo. Estou livre. Não o amo mais. Não o amo mais…

E como poderia?

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