As miraculosas pílulas da felicidade

Dedos femininos flutuam pelo ar, decididos, em direção a algo que jaz sobre uma escrivaninha. É um frasco. Um frasco de vidro amarronzado, com tampa azul-clara. Esses dedos, tão delicados e alongados, rodam a tampa e abrem o frasco. Com a mão direita, vira o conteúdo sobre a mão esquerda com gentileza, e um comprimido, alongado, metade cor-de-rosa, metade branco, cai na palma dessa mão de mulher. Os dedos da mão direita o pegam, analisam-no entre o indicador e o dedão, veem sua consistência, seu peso. Lentamente, direcionam-no a lábios carnudos, róseos em face pálida. A língua é exposta, e a pílula dos milagres é posta sobre ela. Os lábios se fecham, e o remédio é engolido com um movimento da garganta e pescoço.

– Por que tem de tomar esses remédios? – Pergunta uma voz masculina.

– Para que eu não me mate – responde a voz da mulher.

A mulher, na verdade uma jovem de vinte anos, se chama Ana Luiza Villanova. Ela tem cabelos violetas, presos em uma trança elaborada que alcança o final de sua cintura. É alta para os padrões de beleza que regem o mundo. Tem as faces finas, delicadas, e olhos verdes de gazela. Está vestindo uma camiseta de uma banda, preta, e shorts roxos de corrida. Não está trajando um sutiã.

Ana Luiza está em casa, confortavelmente com seu namorado deitado em sua cama, em seu quarto. Seu namorado se chama Bruno Melo. Bruno tem vinte e dois anos, cabelos pretos e olhos da mesma cor. É forte, e da mesma altura de Ana Luiza. Tem a pele tão alva quanto a de sua namorada. Tem uma tatuagem em suas costelas: uma grande cruz gótica. Está vestindo apenas uma calça de moletom cinzenta e macia, enquanto jaz deitado sobre a cama de manta de oncinha do quarto de Ana Luiza.

– Já tentou se matar? Nunca me falou nada sobre isso – Bruno comenta, tomando para si um dos discos de vinil que se postam dispersos sobre a mesa-de-cabeceira de Ana Luiza. O disco, em questão, era do AC/DC. Completamente vintage.

– Já.

Ana Luiza se sentou ao lado de Bruno, que imediatamente apoiou sua cabeça sobre o colo da jovem. Ela acariciou seus cabelos encaracolados, deixando que seus dedos se perdessem naquele emaranhado de fios negros tão amados, tão conhecidos e tão cheirosos.

– Como foi isso?

Bruno fechou os olhos, meio prestando atenção às palavras de Ana Luiza, meio deliciando-se em ser acarinhado. Antes de começar sua curta narrativa, ela soltou um suspiro pesaroso:

– Eu tinha quinze anos. Não tinha amigos, estava muito sozinha. Ninguém estava lá para mim. Então, eu cortei meu braço. Sangrou muito, mas não o suficiente. Meus pais me levaram ao hospital, onde me costuraram, então fui encaminhada para um psiquiatra.

– E toma esses remédios até hoje?

– Sim.

– Não confia em si mesma?

– Não. Mas, antes, eu tomava uns seis remédios. Agora, eu tomo só esse – Apontou para o frasco sobre sua mesa – Um mero antidepressivo.

– É depressão, isso que você tem?

– Mais ou menos. Eu sou bipolar. Porém, já estou quase curada.

– Descobriu só quando foi ao psiquiatra?

– Só.

Ana Luiza continuou acariciando os cabelos de Bruno, nessa pausa que se seguiu. No silêncio do quarto de paredes pretas, era possível ouvir a respiração de ambos, e, se ela prestasse bastante atenção, poderia ouvir o próprio coração. Ou estava apenas imaginando.

– O que foi, meu amor?

– Você acredita na felicidade?

– Estou feliz agora. Você, não?

– Acredito que nunca estou feliz. Talvez esteja e não saiba.

– Por que?

– Tendo a sempre ser pessimista.

– Hoje, estou descobrindo muito sobre você.

Ela sorriu.

– Dia de descobertas.

– Ainda pensa em se matar?

A pergunta pegou Ana Luiza desprevenida.

– Não sei.

– Não sabe?

– Imagino… situações.

Bruno se ergueu, subitamente preocupado. Ficou frente a frente com Ana Luiza, que imediatamente ruborizou.

– Ana, isso é muito sério.

Ela fitou o chão. Sentiu-se como se estivesse novamente diante de um médico profissional, analisando todas as suas ações, prestes a prescrever novamente mais uma pílula que lhe traria a famigerada felicidade.

– Eu sei. Porém, que posso fazer? Sigo o tratamento.

– Eu não a faço feliz?

– Não torne isso algo pessoal.

– É pessoal.

– Não, Bruno, não é.

Ana Luiza se levantou da cama, e ficou a andar de um lado para o outro naquele quarto, enjaulada, como um tigre retirado da selva.

– Sinto-me como um animal selvagem a quem foi dado tranquilizantes.

Bruno franziu o cenho.

– Que quer dizer?

– Sou mais do que isso – As palavras pareciam ter vida própria, saindo dos lábios de Ana Luiza como se estivessem sendo regurgitadas – Sou mais do que uma paciente. Mais do que uma namorada. Eu sou eu. Sou eu em meus altos e baixos, minhas impulsividades, meus lapsos de razão – eu sou eu! Não posso desfazer-me de mim mesma, da mesma forma com que o ar não pode deixar de ser leve, ou o sol, quente.

– Lapsos de razão?

– Nem sempre fui esse anjo domesticado que você conhece.

– Ana… – Bruno mantinha os olhos arregalados.

– Eu possuía vida própria, como fogo-fátuo. Amava, jogava-me na vida. Despedaçava-me, e com isso aprendia sobre a vida e a morte. E a morte, bem, ela sempre foi minha companheira, mas que mal há nisso?

– Todo!

– Por que?

– Ana, a vida é para os vivos! Não para a morte…

– A morte é o que mantém o equilíbrio no mundo. Que mal há em andar com ela?

– Que você está viva!

– Estou viva, sim, mas não mais vivo.

Ela se sentou em sua cadeira, que ficava de frente para sua escrivaninha. Encaixou o rosto entre as mãos, procurando esconder-se das palavras que havia proferido, meio com vergonha, meio com raiva de si mesma, e de Bruno, e de todo o resto do mundo.

– Ana?

Ela não respondeu.

– Ana, por favor, se acalme.

– O que há de errado comigo? – Ana Luiza se levantou novamente – Eu sou louca, sempre fui louca, e negar minha natureza é o mesmo que negar que há vida, e que há morte!

– Está fora de si.

– Não, Bruno. Estou me encontrando.

– Sente-se aqui, ao meu lado.

Por um momento, Ana Luiza fitou-o cheia de mágoas e intensidade. Após esses segundos, ela sentiu a chama que antes havia ardido dentro de si atenuar, então obedeceu ao pedido de Bruno, pondo-se ao lado dele.

– Você não é louca.

Ela pareceu que ia discordar, mas, antes que o fizesse, ele continuou:

– Você pode ter sido, um dia, doente. Não é mais. Você mesma disse que está tomando menos medicações.

Ana Luiza assentiu. Bruno aproveitou a chance e tomou as mãos delas para si, acariciando-as.

– Não sei o que fazia consigo mesma, não exatamente, mas bem, não era.

– Não.

– E quer voltar a isso?

– Você não entende. Eu me sentia viva.

– Prestes a morrer, certamente, seguindo o curso do rio que a levava.

– Não me importo, ao menos eu…

– Cale a boca, Ana, e me escute.

Ela franziu os lábios, consternada, mas acatou.

– Quero vê-la bem velha. Velhinha.

– O quê?

– Isso mesmo. Bem enrugada e sorridente. Quero vê-la assim, daqui a muitos e muitos anos.

– Isso é um desafio.

– Só quero que tente.

– Por que?

– Quero vê-la crescer. Amadurecer. Terminar a faculdade, arrumar um trabalho que lhe apeteça, mesmo que não pague muito bem. Quero vê-la casar, seja comigo ou não, e ter filhos, e amá-los com toda a candura que sei que seu coração possui.

– O que está falando?

– Quero que tenha pelo menos três. Três meninas, pode ser? Vamos imaginar três meninas. Imagine o nome que daria a elas. Não os diga em voz alta, não, é para seu futuro, não o meu, embora possa ser nosso. Bem, imagine o nome delas. Agora, é a vez de elas crescerem, e de você as ver tendo namorados que não prestam, assim como eu. Enquanto elas vivem suas vidas, quero que você também veja a sua. Lendo livros durante as férias, ou mesmo ouvindo alguma música que costumava ouvir hoje em dia, e lembrando-se de mim, dessa conversa, e agradecendo-me mentalmente. Bem, mais alguns anos passam, e uma de suas filhas está casada, a outra está focada no trabalho e a terceira, bem, ela está tentando passar por uma fase difícil, e você a ajuda. Então, tudo fica bem, você consegue ajuda-la. Está tudo bem, e você está com quase sessenta anos. Aposenta-se. Passa a viajar e a conhecer o mundo, seja comigo, seja com outro, seja com suas filhas, seja solitária. Aos oitenta, você ainda está lúcida, e ouve novamente aquela música, e sorri, e me agradece de novo. Quando você tiver quase cem anos, e olhar para trás, verá que valeu a pena. E poderá seguir em paz.

– Isso é tudo muito bonito – Argumenta Ana Luiza – Porém, é irreal.

– Não, Ana, a vida é assim. Viveu tempo demais pensando na morte para poder ver isso.

– Talvez esteja certo.

– E estou.

– Eu te amo.

– Eu também – Bruno boceja – Estou com sono. Que tal irmos dormir?

Ana Luiza o abraça, e o beija nos lábios, rápida e delicadamente.

– Vamos, vamos dormir.

Ela se levanta e apaga as luzes.

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