Eu, você, ela

Era um quarto. Um quarto de paredes brancas, e pequenos espelhos de madeira adornada, tingidos da mesma cor pálida que fechava aquela casa de bonecas de tamanho real, estavam pregados por todo o lugar. Havia também uma cama, com dossel, que estava ali já desde a infância dela. O quarto possuía também uma escrivaninha com um computador e muitos livros de Economia, para a faculdade. Uma janela com alvas cortinas estava lacrada, tornando em noite o dia. O ar estava impregnado com o perfume da lavanda e da erva-doce. Era um ambiente delicado. E nessa casa de papel a menina-mulher se deitava sobre a coberta de cetim-perolado.

Não darei um nome a ela. Poderia ser qualquer uma de nós. Poderia ser eu, você, sua filha, sua irmã, sua mãe ou mesmo sua avó em algum passado. Nunca saberemos. Então, não darei a ela um nome. Era apenas uma menina-mulher. Tinha os cabelos castanhos, que lhe cingiam a cintura. A pele era quase tão fantasmagórica quanto as paredes do quarto. Os olhos destacavam-se naquela alvura, porque eram quase pretos. Tinha altura média, era bonita, bonita como muitas meninas, era apenas mais uma, mais uma eu, mais uma você.

Essa moça estava chorando. As faces se encontravam inchadas, e as bochechas, coradas. Os olhos estavam vermelhos, as pálpebras fundas e escurecidas. Encolhia-se na cama, pressionando o peito com os joelhos, abraçando o próprio corpo maduro. Esse corpo maduro que havia sido sua perdição, sim, e ela o tocava sem querer tocá-lo, porque tinha nojo de si, porque sentia desgosto, porque se culpava, apesar de estar plenamente consciente de que a culpa não era dela. Mas, afinal, seu corpo era seu corpo, e não poderia desfazer-se dele, de modo que, então, tocava-se, abraçava-se, e nessa agonia ambígua ela chorava, e chorava, e lamentava, e gritava, e então ficava alguns segundos em silêncio, para então desabar novamente.

De súbito, largou-se e se sentou sobre o colchão. Entreabriu aquelas cortinas de dossel e deixou que as pontas dos dedos de seus pés branquinhos tocassem o carpete de pele de carneiro que compunha o chão de seu quarto. Deixou que os dedos, de unhas bem-feitas, brincassem e dançassem naquela maciez, por um instante se esquecendo de tudo: quem era, quem é, quem seria, quem será, e tudo o que compunha aquele tantos eus que eram ela mesma. Cessou as lágrimas. Quando deu por si, piscou fortemente, como se tentando se averiguar de que ainda estava acordada. Soube que estava, porque ainda havia aquela dor em seu seio, aquele buraco negro agora tão bem conhecido e tão mau querido, aquela mesma dor que se esvaia quando não estava desperta.

Desabou o corpo sobre a cama, que por um momento, o impacto fez com que ela quicasse comicamente naquele colchão macio como nuvem. Fitou o teto, os olhos bem abertos, como se ali jazesse alguma resposta pela qual houvesse ansiando há muito. Os cabelos de chocolate se espalhavam como um mar doce ao redor de seu rosto perfeitamente hexagonal. As pontas dos pés ainda roçavam naquele chão etéreo. Mas, havia um peso de concreto. No meio de todo aquele ambiente pacífico, pálido, onírico, havia um pesadelo, e o pesadelo era exatamente a realidade.

Fechou os olhos, finalmente, e uma última e única lágrima escapuliu por sua bochecha. Os lábios formavam um sorriso amargo, porque ela sabia que onde havia encontrado mel em sua vida, havia também encontrado o mais venenoso fel. Os dedos cerraram-se em um punho fechado, e as unhas foram cravadas naquelas palmas fechadas, causando-lhe dor física, em contraste com a angústia que sentia em seu âmago.

Ela poderia ser eu, poderia ser você, poderia ser sua filha, sua mãe, sua irmã, sua avó em um passado distante. Infelizmente, para ela, ela era ela. E passou por algo que nenhuma menina ou mulher ou menina-mulher deveria passar. Ela havia sido enganada, enganada – por si mesma? Não sabia ao certo; poderia ter sido por ele também. Mas, e se ele fora sincero? Fora, não fora? Não fora por isso que havia se entregue a ele? Por que havia visto nele algo que não havia encontrado nem em si mesma? Aquela completude que só encontramos uma vez em nossas vidas? Podemos encontra-la em várias umas vezes, mas são tão diferentes umas das outras que nos perdemos sempre que topamos com essa sensação de cumplicidade, de amizade, de amor.

Ela havia encontrado a cumplicidade, a amizade e o amor. Ele, que poderia ser qualquer um deles, qualquer um daqueles seres que chegam para nos esmagar a feminilidade, nossas flores e nossos amores, e que vêm para nos dar em bandeja nossas dores – Ele fora um destes pequenos demônios que chegam para nos atormentar a alma, a paz. Ou havia sido um anjo que, por alguma razão do destino, havia de cair e arrastar a menina-mulher junto de si?

Ela o havia amado no sentido mais puro do amor. Havia sentido o sol acariciando suas faces. Sentido o cheiro de jasmim e amor-perfeito. Ouvido a brisa da manhã, carregada de sussurros delicados, cantando no pé de seus ouvidos. Havia tocado o amor. Havia sentido os dedos dele acariciando suas faces. Sentido seu cheiro, seu perfume, sua consistência levemente doce e cítrica. Ouviu suas palavras pela manhã, carregadas de dizeres delicados, cantando no pé de seus ouvidos. Havia tocado seu amor. E se entregado para ele.

Esse havia de ser seu erro, seu erro mortal. O erro que aniquilaria seu estado onírico de ser. Havia sido seu primeiro. Fora ele quem a tirara de sua castidade; fora ele quem mostrara a ela o mundo do desejo, dos suspiros, dos arfares, dos prazeres da carne, e também do amor. Mas, havia mostrado mesmo a ela esse aspecto tão gentil do amor? Ou havia sido apenas o da carne? Não era o que parecia no início. Ele lhe dizia palavras leves. Ele a fazia se sentir como fumaça. Desvanecia-se ao toque, evaporava, deixava de existir em plena felicidade. Não era?

Ela se entregara. Toda e por completo. Sem hesitar, sem receios. Havia se guardado para o momento certo, e ele era o homem certo. Ele a matava de alegria. Ele era seu melhor amigo, seu confidente, seu complemento no mundo. Onde ela era areia, ele era mar; onde ela era cinza, ele era chama; onde ela era lágrima, ele era sorriso – e eram tão perfeitos nesse seu contraste que se igualavam.

Mas as coisas eram como tinham de ser. Tão logo ela desabrochou para ele, como a mais linda das flores, ele foi embora. Deixou para ela apenas a sensação da culpa, do corpo cheio de meandro, do vazio que era aquela ausência de completude. Seu coração fora partido, não apenas pela paixão quebrada, mas também pela amizade roubada. Com ele, perdeu tudo o que tinha, e a realidade virou o pesadelo. Ficou sozinha, e embora ainda tenha pessoas que a apoiem, ninguém seria capaz de substituí-lo. E agora, carrega a ferida, a ferida que, se ela sobreviver, se tornará cicatriz, e que jamais, jamais deixará com que ela confie em alguém de prontidão novamente. Se tornará gata arredia, e não há nada, nem ninguém no mundo que possa mudar essa sua infeliz verdade.

E a dor a consome agora, enquanto ela fecha os olhos e cerra os punhos na cama de sonho, no quarto de sonho, na vida de pesadelo. Sente sua essência roubada, seu coração fora arrancado de seu seio, e agora não havia pulsão em seu corpo para que ele funcionasse, e via-se com dificuldades para respirar, para falar, para se mover, e tudo o que podia fazer era jazer deitada em sua cama, com punhos cerrados e unhas que cravavam em sua pele. E lágrimas de sangue que escorriam pelas faces pálidas.

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