O filho do mar

 

Sentou-se na areia da praia em uma noite de sol.

Digo noite de sol pois era uma noite quente de verão. Tão quente que a areia era morna sob os pés descalços e a brisa não refrescava. A maresia enchia os pulmões com seu teor salgado, dando gosto aos lábios. A luz dos postes gerava um tom de artificialidade, mas ele não se importou com a sensação. Chegou até a gostar. Quando a cidade e a natureza se fundiam, ele se sentia perdido, e por isso mesmo se encontrava. Pois ele era sempre solitário, espiralando no espaço. E assim que a confusão aparecia, ele se sentia reconfortado e se identificava com essa mistura frenética de sensações.

Retirou um cigarro do maço e o acendeu. Como o vento era quase nulo, não precisou de mais de uma tentativa. A fumaça imediatamente o envolveu e ele tragou o veneno aéreo, inspirando com força aquele vício da carne. Pensou se iria para o inferno por ser humano, por gostar tanto de sensações terrenas. Será que havia mesmo um inferno? Às vezes se deliciava com a criatividade mundana e a força com que ela se propaga através de gerações. Assim como a mitologia grega, pensava que as religiões cristãs eram contos, histórias passadas de pai para filho. E que chegou até seus ouvidos com certa graça.

Desenhou com o indicador sobre a areia. Começou formando o contorno de um balão, mas assim que estava prestes a terminar, ele perpassou a mão pela imagem e riu consigo. Nunca terminava coisa alguma. Nunca. Desde que era pequeno, ele ameaçava se interessar avidamente por determinado assunto, mas assim que algo saía das linhas do plano original, ele desistia de tal missão. Era assim com os mais diversos tópicos: de problemas em casa, situação financeira e até relacionamentos amorosos. Jogava-se de cabeça no mar das dúvidas e assim que percebia que nada era como esperava, ele deixava-se levar com a maré.

Olhou para a lua e fechou os olhos, arquivando na mente o brilho fraco e cálido do luar minguante. Pensou em várias coisas e não pensou em absolutamente nada de concreto: o rosto que mais permanecia na sua mente era o de uma garota. Ele a havia conhecido meses antes, e ela ainda permanecia ao seu redor, esperando para abatê-lo. Não era dele, mas ele era dela. Esperaria até o momento certo para tê-la em seus braços. Ansiava para que ela estivesse finalmente livre dos próprios temores, das próprias angústias, tristezas das quais ele não tinha forças para fazê-la se sentir inteira e pura, mas sabia que seria um grande muro ao seu lado. Seria o conforto dela, assim como ela seria o conforto dele. Pois ele a amava muito, desde que havia visto aquele par de olhos azuis, azuis como o céu daquele mesmo dia, quando o sol ainda estava reinando soberano. Embora não fosse uma grande paixão, ele se sentia tranquilo ao seu lado, assim como devem ser os amores que duram a vida inteira. E ela via nele um grande descanso. Mas ela vinha passando por um momento de grande turbulência: ela era fogo catastrófico. E ele era água.

Também pensou em sua mãe, que o esperava em casa. Era uma senhora de meia idade, com cabelos castanhos – tingidos, pois em sua grande parte já eram brancos. Era uma mulher muito firme e doce. Havia sacrificado muita coisa em nome dele nos últimos anos – para pagar a faculdade, ela havia vendido a casa em que havia vivido com ele e o pai dele, que falecera há alguns anos, deixando um grande rombo de afeto no coração dos dois. Ainda assim, ela persistia na vida, com um sorriso no rosto e dedos doces que sabiam cozinhar e costurar. Ele a amava com todas as suas forças. E ela sentia o mesmo, senão o dobro do que ele.

Relembrou-se do tempo em que era adolescente, e não um jovem adulto como agora. Dos tempos em que ficava nervoso ao comprar cigarros, caso pedissem sua identidade, sem que possuísse a idade adequada. Dos tempos em que um beijo era a coisa mais importante que poderia acontecer. Quando maconha era novidade divertida, e não algo a retirar o tédio absoluto. De quando seus amigos pareciam que perdurariam para toda a eternidade, mas eventualmente cada um seguiu seu rumo, lentamente, do jeito que deve ser. Sentiu saudade daqueles dias aventureiros. E do seu melhor amigo, que sempre esteve ao seu lado, mas teve de se mudar para outra cidade por conta da faculdade.

Ultimamente ele vinha se sentindo mais solto do que de costume. Como se a vida o carregasse ao invés dele próprio tomar as rédeas. Já havia passado por muita coisa, muitas penúrias, mas agora tudo se tornava calmo, frágil, devagar… Nada para se segurar, mas nada também a temer. Tudo ia bem, nada ia mal. Ao mesmo tempo, nada ia bem, pois nada realmente acontecia. Nada, nada, nada, e ele nem sabia nadar. Só apreciava a imensidão do mar que se postava à sua frente naquele instante.

Ele realmente era o filho do mar, filho das ondas, da maré que sobe e desce. Sereno e calmo antes de uma tempestade, revolto e perigoso quando as grossas gotas de chuva caem dos céus; oscilando entre a cheia e a nova, sempre em ciclos de instabilidade emocional e psicológica; vivendo na eterna berlinda entre jogar-se na vida e prender-se na expectativa da morte. Era como se um pedacinho do gigantesco oceano vivesse dentro dele e isso o apavorava: mas era a maior verdade – não somos feitos todos de água? E se algumas pessoas nascessem com o dom de possuir salinidade nas veias ao invés da docilidade constante de uma alma pacífica? Sim, era filho das marés, e não do ar com sua força, nem da terra com sua estabilidade, tampouco do fogo que tudo consome: descendia das oscilações das águas e de todos os seus devaneios.

Era um sonhador, mas também era cético.

Era um guerreiro, mas também sabia recuar.

Era a onda que vai e volta.

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