A dama e o carcereiro

Eu corria. Corria muito já há algumas horas – ou talvez dias? Minutos?, e pensava que meu coração fosse explodir em meu sistema a qualquer instante. Sentia uma pontada em meu peito e meus pulmões cada vez mais perdiam a capacidade de puxar e exalar o ar. Não tinha para onde ir; estava no meio do nada; no seio de alguma floresta ou de um deserto – estava em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em nenhum. Meus pés sangravam devido à rudeza do solo. O céu era escuro, obscuro, sombrio – seria um dia nublado ou uma noite eterna?

Caí. Tropecei em um galho retorcido. Somente o acaso me faria parar, e o acabara de fazer. Encolhi-me no solo líquido que se desfazia sob o peso de meu corpo e fui englobada por toda aquela água, todo aquele sangue, toda aquela desgraça insubstancial. Deitei-me sobre minhas tragédias e deixei que tomassem conta de meu corpo moribundo e exausto. Fechei os olhos e me entreguei à dor da existência.

Fugi de meu carcereiro. Fugi daquele que me prendia, que me manteve por anos refém de suas próprias vontades. Fugi daquele que pelo tempo aprendi a amar, sou doentia mesmo, doentia relação, doentio sentimento, dependência concreta, sentimento fugaz e frívolo, mas tão intenso que, sim, fez com que sentisse prazer extremo ao ver-me na condição de condenada, de sequestrada, de prisioneira. Eu o amava por ter destruído tudo o que prezava. Era um sentimento seguro, brusco e abrupto – estando ao seu lado, só teria ele. Ele e ele e seu sorriso de escárnio, seus olhos sádicos e suas mãos grosseiras. Mas, ao menos, nada teria a perder. Ele jamais me libertaria. Eu jamais me desprenderia de suas amarras. Eu era dele, e ele, meu proprietário.

Conformava-me com a noção de que ninguém viria me salvar. Reconfortante, de certa forma. Era uma situação estável, saudável – saudável? Sim, aos olhos da prisioneira. Séculos se passaram na masmorra de meus pesadelos, e ainda assim, não havia vontade de me libertar de tal dependência obsessiva. Eu era dele, e ele, meu proprietário.

No fundo da mente, no fundo onde jazia a constância e a realidade, eu sabia que ele, um dia, seria o senhor de minha morte. E, ora, eu sou muito jovem para morrer! Essa noção por vezes tomava força, mas jamais prevalecia à loucura, à Síndrome de Estocolmo. Era como nadar contra a corrente – aquela minúscula força benévola e consciente lutando para ultrapassar as ondas da mania.

Um dia, ela venceu a maré. Venceu e fez com que saísse de meu cárcere. Saí caminhando dali – estava tão aprazível naquela situação que meu próprio carcereiro perdeu o medo de que fugisse. Então eu corri. Corri como se nada mais existisse – apenas a fuga daquele mundo imundo.

Fugi, e nada mais me resta.

Apenas as lembranças de um cárcere.

E o amor por meu carcereiro.

 

 

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