Os móveis mortos

Sento no chão, encolhendo-me de encontro à parede. Meu casaco de lã me protege do frio, embora minhas pernas estejam despidas. Não uso calça, apenas roupa íntima e uma regata. Mas isso é o de menos nesse momento. Encolho-me de encontro à parede, fecho os olhos bem apertados, para enfaticamente proibir as lágrimas de descerem. Sinto o sutiã apertando minhas costas, gerando dor em minha coluna, mas sinto prazer com isso. Com minha decomposição lenta e gradual, que certo dia me tomará a vida, pois estarei velha e morrerei – isso se tiver sorte, ou azar, pois poderia morrer jovem em algum tipo de acidente ou em decorrência de alguma doença súbita. Talvez eu adquira algum problema exótico, sem nenhuma solução. Talvez coração partido me mate, como matou a Dama das Camélias. Posso tomar veneno, como Madame Bovary. Ou me tornar velha e independente. E morrer. De que adianta tudo isso se vou morrer de qualquer maneira? Sofrer e morrer. É isso.

Sento no chão e ali permaneço. Abro os olhos, finalmente, agora que sequei e enxuguei meu coração. Esvaziei-o, como se abrisse o buraco de entrada de ar de um balão cheio. Devagar, a dor vai embora. Vai embora, mas uma hora volta. Só não quero que volte agora. Só não quero que volte agora, com o apartamento vazio me encarando. Com o espírito do sofá vermelho me observando. O sofá vermelho tinha alguns furos de cigarro, mancha de molho de tomate. Sempre perdíamos o controle remoto em suas reentrâncias. Costumávamos nos sentar ali para assistir televisão ou conversar com nossos amigos. Eu apoiava minha cabeça em seu colo e punha os pés descalços na mesinha de centro, onde repousavam nossas cervejas e o cinzeiro. Ele me envolvia com seu abraço e eu era englobada pela sensação de segurança. Nada poderia me atingir. Sentia a trepidação de sua risada ecoando em seu peitoral, sua voz pouco distorcida em meu ouvido abafado de encontro ao seu peito. Segurança. Segurança e companheirismo. Amor.

Só não quero que a dor volte agora, enquanto os espectros das cortinas balançam de acordo com a dança de um vento invisível. As mesmas cortinas que um dia eu quase derrubei enquanto fazíamos sexo no chão da sala, bêbados. Nós rimos, e a luz da lua banhava nossa pele. O ar que saía dos seus lábios fazia cócegas em minha orelha. Eu segurava suas costas, e a sensação morna de meu toque em seu corpo tornava-me sensível, estática. Os pelos de meu braço sempre se arrepiavam. A cada gesto, a cada palavra. Nunca houve sequer um instante em que estivesse ao seu lado no qual eu não me sentisse completamente entregue e rendida à pessoa que o compunha, nenhum instante em todos esses anos rápidos e flecheiros. Suas palavras. Seu carinho. Seu amor. Seu amor que acabou.

Só não quero que a dor volte agora, uma vez que estou sozinha, encolhida de encontro à parede, fechando minhas lágrimas, abrindo meus olhos para o grande vazio inabitável, desértico de nosso apartamento. Não tão deserto. Deserto, mas cheio de caixas. Caixas fechadas, esperando para serem lacradas e levadas para minha nova casa. Caixas viajantes que ainda vão peregrinar pela primeira vez. Caixas que guardam segredos, cheiros, toques, risadas. Memórias. Somos feitos de recordações, e são elas que nos mantém vivos. Senão, o que teríamos na vida a não ser a morte? Espere, estou me contradizendo. Estou abrindo meu coração. Preciso me amargurar para a dor Verdadeira ir embora. Não, memórias são coisas fúteis. Não devemos nos ater a elas. Apenas trazem dor. Pois o momento já passou. Perdemo-los. Esqueçamo-los. Ou devo ver minhas lembranças apenas uma vez? Estou confusa. Seguirei meu instinto. Logo, engatinho até uma dessas caixas. Abro-a.

Discos de música, que botávamos em uma vitrola que um dia pertenceu à avó dele. Ele já havia buscado a vitrola, mas deixou os discos para mim. Seria uma forma de tortura? Pego um LP do David Bowie e vejo sua capa. É a clássica, com seu rosto pintado com o raio vermelho e azul. A borda da capa estava manchada de café, e me pergunto como isso ocorreu, uma vez que mantínhamos os discos guardados com esmero dentro do armário do quarto, armário que também já morreu e agora só existe o fantasma. Talvez ele tenha ouvido música escondido com os amigos enquanto eu estava no trabalho. Não sei. Um mistério que jamais será revelado.

Abro outra caixa, e me deparo com papéis. Em suma, documentos meus, como certidão de nascimento, título de eleitor, cópia do RG. Sob toda essa pilha burocrática, eu encontro o que temia: cartas, poemas, gentilezas e pequenos atos de ternura. Desdobro o primeiro papel que encontro e vejo a letra dele, cursiva e fina, alongada, se dirigindo a mim. Não quero ler. Lerei quando eu puder abrir a outra caixa, a caixa da dor. Guardo a carta em seu lugar.

Finalmente, na terceira caixa, eu encontro os vídeos. Filmes gravados para videocassete. A televisão do quarto ainda está ali, ela me pertencia. Ainda não estava morta, nem enterrada. Não estava nas caixas viajantes. Vivia entre as almas de seus antigos colegas. Pego três fitas aleatórias e vou, agarrada a elas como se fossem minha última esperança vital, até o quarto. O som de meus passos faz com que a dor volte lentamente. Devagar. A cada passo. A cada segundo. A cada som. Não existem outros pés no apartamento. Apenas os meus. Meus pés pequenos e pálidos, com unhas de esmalte descascado. Sem pés de homem. Só meu movimento. O restante está morto. Morreu sem ficar velho. Foi apenas um acidente que os matou enquanto eram jovens. Não tiveram a chance de se degradar junto ao meu corpo e ao corpo dele.

Sento-me no chão frente à televisão e a ligo. Ainda é uma televisão grande, de tela não-plana. Abaixo dela, um aparelho de DVD, e sob ele, um videocassete, empoeirado e há muito não usado. Gravávamos mais filmes do que os assistíamos. Eu aperto o botão para que ele retorne à vida, e ele o faz perfeitamente. Gostaríamos que funcionássemos assim, ao apertar de um botão. Deixar de amar? Botão verde. Deixar de sentir dor, saudade? Botão amarelo. Ser feliz? Botão azul.

Coloco o primeiro filme na entrada do videocassete. A televisão para de chiar e por um momento a tela se torna preta. Em seguida, as imagens começam a aparecer. Pauso por um instante e acendo um cigarro que guardava dentro do sutiã. Então minha tortura masoquista tem seu início.

– O que você está fazendo? – Estou filmando, eu o pergunto.

Ele está sentado em uma clareira. Ficava distante do hotel em que nos hospedamos nas férias de janeiro do ano passado, época da gravação. É uma cidade de serra, onde a mata fechada nos cerca. O nosso carro off-road está estacionado ao fundo. O céu, na parte em que aparece no vídeo, é azul claro, sem nuvens. Havíamos subido uma trilha para chegar àquela clareira. Ele está deitado no chão verde e branco, retirando as pétalas de uma pequena flor que havia sido sua vítima. Ele poderia ter escolhido qualquer outra, mas colheu aquela para logo destruí-la, assim como fez comigo. Mas nessa filmagem, eu ainda não raciocinava dessa maneira.

– Estou vendo se você me ama ou não.

Eu me sento sobre sua barriga, entrelaçando-o com minhas pernas. Meus joelhos, cobertos por jeans, aparecem no vídeo. Aproximo a câmera de seu rosto. Ele sorri, sem jeito, sem graça, e eu rio de seu acanhamento. Subitamente, o par de olhos azuis mira na tela,

e sinto meu estômago se revirando. Não lembrava de seu olhar que escrevia que me amava. A caixa de dor abre mais um pouco em meu peito.

 

Ele diz meu nome com docilidade. Estica seu braço para além de onde a imagem alcança, e suponho que ele esteja ponto uma mecha de cabelo meu atrás de minha orelha, como costumava fazer na época em que me desejava.

– O quê? – Eu pergunto.

– Nada – ele sorri.

– Diga.

– Eu te amo.

Antes que eu desse por mim, eu desligo o videocassete.

Dou mais um trago no cigarro.

Não vou mais assistir à merda de vídeo algum.

Fecho os olhos.

Trago mais uma vez.

Feche a caixa,

apenas feche a caixa.

Silêncio.

Apenas o ar entrando e saindo de meus pulmões.

A solidão da casa morta, dos móveis mortos, do caixão que nosso apartamento havia se tornado. Do eterno cortejo que no qual havia se metamorfoseado nossa existência quando juntos. Na cova que nosso amor cavou, na qual agora eu me deito. Meu crânio, meus ossos virando pó. Meu coração secando, murchando, carcomido por vermes. Somos apenas dois estranhos, agora. Não nos amamos mais. Não nos vemos mais. Nosso amor é a casa morta. Apenas silêncio e memórias, que vão pouco a pouco sendo esquecidas, até não existirem mais, nem em nossas mentes. Somos dois estranhos. Dois estranhos que se conheceram e se desconheceram. Somos como os móveis mortos. Somos dois cadáveres um para o outro.

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