Liberdade.

O céu estava azul naquele dia. O vento em meus cabelos fazia os mesmos baterem em meu rosto, tampando, às vezes, a minha visão. Meus olhos, da mesma cor que o céu, não estavam com o brilho que antes existia, eles estavam mais escuros, procurando por alguma coisa que eu não sei; meus lábios estavam secos, como se eu não bebesse algo fazia dias, apesar d’eu me hidratar bem; e minha expressão, um dia feliz, estava vazia, empty. Eu sinceramente não sabia quem era essa pessoa que eu via a minha frente. Ela não era eu, era outra.

Caminhava entre os corredores de forma complexa, sem dizer o que eu sentia. Os corredores estavam cinzas, com resquício de um incêndio de décadas atrás; as portas estavam sempre abertas, quando fechadas, significava que alguém fora libertado, não sei se pelo dinheiro ou pela deusa. Eu podia ouvir as vozes das histórias que passavam por aquelas paredes, e podia ver as pessoas repetirem essas histórias como as almas que passaram e ficaram ali.

Elas eram minhas companheiras, minhas amigas; sempre ao meu lado, dizendo o que eu sentia e o que eu não mais tinha em mim. Diziam-me que elas eram falsas, traiçoeiras, mas elas acabaram por ser minhas amigas. Inclusive, eram elas que estavam a me levar pela mão por um caminho novo. As moças de Branco, assim eu as chamava. Elas diziam que ia ficar bem, e que, quando eu voltasse, poderia me tornar uma delas. Eu sorri pela primeira vez naquele dia.

Eu subia os andares devagar junto a elas, ouvindo sussurros e gritos agoniados daqueles que ficavam atrás de mim, eu sabia que eles as viam também. Talvez fosse inveja deles por elas terem me escolhido. Comecei a olhar pelas janelas sujas daquele lugar e vi o céu azul brilhar do lado de fora, os pássaros voando e algumas nuvens – há quanto tempo eu não via o céu assim? Gravei aquela imagem em minha mente, quem sabe eu não a pintasse mais tarde? Sim, meus desenhos eram uma vergonha, mas eu me sentia orgulhosa dos sentimentos que eles tinham. Continuei a subir sendo segurada pelas mulheres. Que fim isso levaria, afinal?

Finalmente, cheguei aonde queria chegar. De lá, vi mais claramente o céu azul da janela anterior; pude ouvir os pássaros, tão baixos como as nuvens, como se eu pudesse tocá-los; e o vento, novamente, batia no meu cabelo como se tentasse me impedir de ver a beleza perante meus olhos. As Mulheres soltaram meu braço e sorriram, dando-me novamente a liberdade que eu desejava. Corri por todos os lados rindo, parecia que eu poderia explodir com essa alegria que me era tão privada. Dancei e cantei como se eu não fosse mais voltar lá, até que me vi em um canto que eu podia ver o mundo – que belo canto era aquele! Olhei ao redor e vi-me contemplando o mundo ali que eu tinha. Foi então que eu ouvi algo que eu não ouvia há tempos: risadas.

As pessoas que eu observava lá de baixo riam como suas vidas fossem eternas, como se os problemas não existissem; e, mesmo aqueles que não riam, pareciam estar em volta daquela aura. Eu observei com cuidado, como se tentasse absorver a alegria deles, mas eu sabia que eu nunca a teria. Tentei me aproximar mais daquele mundo, queria vê-lo de perto, eu queria a liberdade deles, a alegria deles; por que eles tinham tudo e eu, nada? O que eu havia feito que eles não haviam? Eles era tudo aquilo que um dia eu fui.

Vi as Mulheres de Branco se aproximarem de mim, ainda sorrindo, e segurando minhas mãos, elas me apoiavam, elas me ajudavam; eram minhas amigas. Apertei as mãos das duas que estavam ao meu lado e, enfim, eu senti o vento bater em meu corpo, como se minha alma se elevasse de um modo que sempre sonhei. Pude ver as Mulheres sorrindo para mim, assim como eu sorria para elas. Eu estava livre. Eu estava voando. E, o mais importante: eu havia roubado a alegria deles para mim.

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