O final alternativo de “Os Últimos Dias de Isabela Garbocci”

Natália falando aqui. Esse é o esboço do que seria o final alternativo de meu livro, Os Últimos Dias de Isabela Garbocci. Ainda está dividido em capítulos e epílogo, uma vez que foi antes de eu decidir dividir o livro em “dias restantes”.

Boa leitura.

  1. Mais uma alma se esvai, e suas consequências são absorvidas pelos que ficam na Terra.

 

Fui acordado pela luz da manhã, queimando meus olhos com sua claridade.

Instintivamente movi meus braços pela cama em busca de Bela, mas ela não estava deitada. Então eu me levantei e olhei ao redor: a porta do quarto estava aberta, e não havia nenhum sinal de minha garota naquele ambiente. Raciocinei de forma rápida e concluí que ela deveria estar em seu quarto, ou que fora passear em algum lugar. Ela era tão impulsiva e estranha que nem duvidei da segunda possibilidade.

Balancei a cabeça negativamente conforme me levantava da cama. O cheiro de Bela estava em todos os cantos: aquele perfume de rosas e manhã de inverno, exalando de meu lençol, de meu travesseiro e até mesmo de mim. Entretanto, a segunda fragrância poderia se dar, também, pelo dia nublado e chuvoso em pleno verão, pensei, ao olhar a paisagem do lado de fora da casa.

Coloquei a primeira calça que vi em meio ao caos do quarto e saí em busca de Bela – se é que ela estava em casa.

Foi quando eu senti o cheiro, em pleno corredor, empestando a casa como veneno.

Cheiro metálico.

– Não – sussurrei, sentindo meus olhos se arregalarem.

Corri para dentro do quarto de Bela, seguindo o odor mórbido, a poucos passos de distância do meu, mas ela não estava em sua cama, sorrindo e com o celular na mão, como meus anseios desejavam. Tampouco estava lendo um livro próxima à janela. Em seu lugar estava o vácuo que era preenchido por meus maiores temores. Não, o quarto estava vazio e impregnado com aquele cheiro de sangue.

A gata de Bela estava sentada, esperando pacientemente do lado de fora do banheiro. Bela deveria estar tomando banho, apenas, tentei mentir para mim mesmo. Com as mãos trêmulas, apesar de minha vontade de manter a calma, eu abri a porta e quase vomitei com o que vi.

Bela estava com a cabeça recostada na banheira. Seus olhos amendoados estavam fechados e ela estava sorrindo fracamente, como se dormisse e estivesse tendo um belo sonho. Seus braços boiavam na água vermelho-escuro, os pulsos rasgados em dois longos cortes verticais, a carne pálida exposta para quem quisesse ver. Os cabelos, dourados como a luz do sol, escorriam até o chão, aos pés da banheira.

– Não – repeti, apoiando-me na batente da porta, extremamente tonto.

A gata passou por mim, esfregando sua calda em uma de minhas pernas enquanto caminhava em direção à sua dona. Sentou-se ao lado de Bela e começou a lamber uma das patas dianteiras, como se aquilo fosse uma cena comum, ao qual estivesse acostumada. Como se pensasse, assim como eu gostaria de acreditar, que Bela estava apenas cochilando.

Caminhei tropegamente até onde Bela estava, quase tropeçando no percurso por conta da súbita fraqueza nas pernas. Ajoelhei-me de frente para ela. Passei a mão por seu rosto, agora tão pálido, sem o costumeiro rubor nas bochechas.

– Bela? – chamei-a.

Ela permaneceu idiotamente parada.

– Bela? – minha voz saiu mais tensa, desesperada.

Nenhuma resposta.

Levei minhas mãos à minha cabeça, puxando os cabelos.

Não, não poderia ser verdade.

Bela não estava morta.

– Sua imbecil – xinguei-a, batendo fortemente com as mãos no chão ao meu redor.

Isabela não reagiu à ofensa. Apenas permaneceu como estava ao encontrá-la, com um sorriso faceiro e olhos fechados em um repouso tranquilo, como se zombasse de meu desespero. Não devolveu o desaforo como normalmente fazia. Não rimos de alguma piada contada no final de uma curta briga. Sua voz doce não flutuou até meus ouvidos. Tornei a passar a mão em seu rosto, mas como ela permaneceu petrificada, eu puxei seus cabelos pela nuca e levei sua cabeça para meu colo, passando os dedos nos fios louros de minha amada.

– Por que, Isabela? – sussurrei.

Ainda transtornado por sua falta de reação, eu a peguei pelos ombros e abracei seu corpo inerte, sujando minha pele com a água manchada pelo sangue dela. Não me importei. Queria apenas sentir o calor do corpo de minha Bela mais uma vez, mas ela já estava gelada e a carne estava meio rija e enrugada pelo contato de horas contra a água fria.

Apertei-a sem medo de machucá-la, pois ela não sentiria mais nada. Envolvi-a com meus braços, como se meu amor pudesse vir a reanimá-la. Mas se mostrou um esforço inútil, porque Bela continuava morta.

Bela sempre estaria morta, a partir de agora.

Gritei, com todas as forças de minhas cordas vocais.

Gritei, na esperança de que isso fosse apenas um sonho e que o esforço fosse me despertar.

Continuei abraçando o corpo de Bela. Como estava com a metade do corpo emersa por estar em meus braços, constatei que ela estava nua, e mesmo morta, era linda como uma ninfa. Não havia um único erro em seu corpo pálido e delicado, um único erro em seu rosto perfeitamente desenhado. Não tive medo de profaná-la quando dei um uma série de beijos rápidos e delicados em seus lábios, agora esbranquiçados pela morte. A própria Isabela havia profanado meus sentimentos ao cometer suicídio.

Foi então que vi, brilhante em seu ouro, da mesma cor dos cabelos de Bela, o colar que eu lhe dera e que pertencera à minha mãe. Boiava sobre a água carmim. Peguei o medalhão com as mãos anestesiadas e incertas e o abri. Em cada lado, preso pelas pequenas molduras, havia uma foto minha e de Miguel. Fechei-o, sem conseguir ver minha imagem por muito tempo. Apertei-o em meu punho fechado, sentindo o fecho pontiagudo ferindo minha mão, mas não me incomodei o suficiente para soltá-lo. Inspirei com força e fechei os olhos, tentando me controlar. Abri novamente os olhos e retirei o colar de Bela, passando o cordão por sua cabeça, e nesse movimento ele embaraçou um pouco em suas madeixas, mas eu desenrolei o nó com suavidade e tomei o objeto para mim.

Aquele colar deveria ser amaldiçoado, e eu havia passado o fardo de minha mãe para Bela. As duas mulheres de minha vida haviam se suicidado – uma por minha ausência, a outra pelo excesso de minha presença. Quem era eu para pensar ter o direito de sentir a falta das duas? Havia, nesses dois suicídios pérfidos, uma parcela de minha culpa. Guardei o objeto enfeitiçado por magia negra em um de meus bolsos da calça. Depois eu decidiria o que faria com ele. Tornei a observar minha amada morta, tentando digerir a ideia de que não mais ouviria sua voz, ou que não mais veria seu sorriso sincero, ou que nunca mais a veria franzindo o cenho quando estava brava ou concentrada.

Depois de intermináveis minutos encarando o rosto de Bela em meus braços, quase que inconscientemente, eu a descansei com leveza sobre a banheira, deixando-a na posição que estava antes de eu encontrá-la. Eu precisava ser racional, precisava agir, e principalmente, manter a calma. Já havia passado por coisas difíceis, mas – não, não pensaria em meu passado. Não, eu não poderia perder a cabeça. Concentrei-me no momento presente. Sabia que Bela estava morta – não havia dúvida, nem precisava checar seu pulso. Todo e qualquer esforço para que ela voltasse à vida não possuiria fundamento. Não havia um único ar saindo de seus pulmões fazendo com que a água ondulasse sob seu rosto. Tudo estava parado – o tempo estava parado.

De modo que me dirigi novamente ao seu quarto e peguei o celular que repousava sobre o criado-mudo. Graças a Deus ele não possuía senha de acesso, e então liguei para quem eu sabia ser a primeira pessoa que precisava saber disso.

– Isa? – era Ava.

– Não – respondi, sentindo um nó na garganta. Não conseguia dizer muita coisa.

– Serafim? – a voz perdera a curiosidade e se enchera de impaciência.

– Bela está morta.

 

Recordo-me vagamente dos momentos que se seguiram. Ava estava tomando café em algum lugar com Miguel, dando-lhe conselhos para melhorar sua relação com Isa, quando telefonei. Não é preciso dizer, então, que Miguel soubera da notícia por Ava quase instantaneamente. Um dos dois, não sei dizer qual, ligou para um hospital particular e eles mandaram uma ambulância buscar Bela. Assim que o veículo chegou, Miguel e Ava também apareceram. Miguel não dissera nada, nem sequer me vira parado em frente ao quarto de Bela enquanto os paramédicos buscavam o corpo. Passou por mim como um furacão em direção ao cadáver. Quando ouvi seus sussurros se tornarem gritos, saí dali, pois se eu permanecesse escutando seu desespero, eu também enlouqueceria, mas consegui ouvir fracamente, ao longe, os paramédicos tentando afastá-lo do corpo de nossa garota, ameaçando-o com sedativos.

Ao descer para a sala, encontrei Ava sentada no sofá, abraçada a uma almofada, se balançando de trás para frente e de frente para trás incessantemente. Ela possuía o rosto inchado e vermelho, quase que da mesma cor dos seus cabelos. Ao me ver, ela se levantou instantaneamente e começou a gritar comigo, apontando seu indicador para meu rosto. Não ouvi uma palavra do que disse. Era como se meus sentidos estivessem desligados, mortos, tentando acompanhar Bela para o plano no qual ela se encontrava agora – se é que havia um.

E então chegou a hora de os paramédicos a transportarem para o hospital e ficou decidido que eu iria com ela, pois na lei eu ainda era seu primo, e também o único parente presente. Sorri diante da situação irônica, mas a acompanhei sem protestar. Entretanto, como eu soube desde o início, todo aquele show não passava de uma grande inutilidade. Quando chegamos ao local, disseram que Bela não possuía salvação. E o restante foram formalidades. Cuidei de tudo o que podia, mas sem os pais de Bela, muita coisa não pôde ser assinada.

Voltei para casa e encontrei Ava ao telefone. Miguel sussurrara algo sobre ela estar falando com a mãe de Bela após terem procurado o casal ligando de agência a agência de viagem, mas que, finalmente, os haviam localizado. Ela botou o telefone no gancho poucos instantes depois e disse que eles pegariam o próximo voo para o Brasil.

 

Pouco mais de doze horas depois, os pais de Bela chegaram a casa. Eu e Ava esperávamos por eles; Miguel havia saído para dormir um pouco em seu apartamento depois de horas de silêncio fúnebre compartilhado por nós três.

Quando abri a porta para que eles entrassem na casa, eles avaliaram meu rosto como se eu fosse um completo estranho. Carmem, a mãe de Bela, usava um casaco de lã e calças de camurça. Já Vítor, a cópia física – em versão masculina – de sua filha, usava uma jaqueta de couro e calças grossas. Provavelmente acabavam de voltar de um país do norte da Europa.

– Vocês não devem se lembrar de mim – anunciei, ao fechar a porta – Mas sou seu sobrinho, Serafim.

– Oh – fez Vítor – Filho de meu irmão, é claro… Agora que reconheço os traços de Valentina em você.

Carmem permaneceu calada, apenas assentiu em confusa compreensão.

Após momentos constrangedores, Ava saiu da cozinha e cumprimentou os pais de Bela. Eles já a conheciam, obviamente, e a trataram de uma forma muito mais simpática e amigável – o tanto quanto era possível naquele instante de luto – do que fizeram comigo.

Todos se sentaram na sala, em duplas nos sofás. Eu e Ava ficamos de frente para os adultos. Foi então que Carmem perguntou:

– O que aconteceu com minha filha? – a pergunta, em tom angustiado, foi seguida de um gesto – Carmem pegou um terço que estava escondido sob suas vestes de inverno e o segurou entre os dedos, apertando-o com força. Lembrou-me minha própria reação ao tomar o medalhão do pescoço de Isabela.

– Ela se matou – respondi de imediato.

Ava beliscou-me nas costas, fora do alcance da vista de Vítor e Carmem.

– Ela cometeu suicídio, sim, isso é verdade – e Ava, muito mais delicada ao dar a notícia do que eu, olhou para baixo, corando imediatamente. Vi seus olhos ficarem marejados, mas ela se conteve.

– Não posso acreditar nisso – sussurrou Vítor, coçando os olhos com as palmas das mãos, exausto.

Carmem olhou para o chão, da mesma forma com que Ava fizera, mas começara a chorar instantaneamente, soluçando. Ela possuía cabelos castanhos, curtos, mas quando ela fez o movimento eles cobriram seu rosto. Foi possível ver uma lágrima caindo sobre o carpete.

– Por que ela fez algo assim? – ela perguntou, mais para si do que para todos os presentes.

– Bem… – comecei a dizer, mas fui interrompido.

– A gente sabe que Isabela nunca foi saudável psicologicamente – disse Vítor.

– Não consigo acreditar… – confessou Carmem.

– Ela parou de tomar os remédios quando vocês viajaram – anunciou Ava.

– Mas ela não podia… – começou a mãe.

– Sim, ela não podia ter parado de tomá-los – completou Ava – Mas ela sempre se sentiu mal por usá-los. Ela me disse, uma vez, que se sentia disfuncional, como um humano robotizado, que precisava constantemente de reparos para funcionar direito perante a sociedade.

– Ela nunca me contou isso – exclamou Carmem, mirando Ava com olhos injetados, intensos.

– Talvez ela tenha dito, mesmo que sem verbalizar, mas vocês não perceberam – eu falei.

Serafim – a voz de Ava era um alerta.

– Desculpe.

– Muitas coisas aconteceram com ela enquanto estavam fora – começou Ava – Ela se apaixonou por dois garotos ao mesmo tempo.

O quê? – perguntou Vítor, e por um instante pareceu que Bela ainda estava viva e ele era um pai ciumento e extremamente protetor, recebendo a notícia de que sua filha estava em perigo, exposta para os predadores.

Então Ava resumiu-lhes a história de Isabela, ocultando apenas as partes das quais não tinha conhecimento, mas que eu sabia muito bem – como o colar que eu lhe dera, ou a noite que ela passara com Miguel e a noite anterior, na qual Bela passara comigo. Disse-lhes quando e como ela conhecera Miguel, e também como me conhecera; Contou para eles sobre a briga no bar, e todas as outras discussões e conflitos subsequentes. Narrou-lhes as mudanças de humor de Isabela, sobre como estava muito feliz em alguns momentos e então se tornava subitamente melancólica, formando uma barreira entre seus pensamentos e o mundo. Quando terminou tudo o que tinha de lhes dizer, foi minha vez de contar a Vítor e Carmem minha própria história – sobre como fui parar ali, a ruptura de minha família seguida da morte de minha mãe e sua traição acarretando em meu nascimento, para que eles entendessem o que eu fazia ali, afinal de contas.

– Isso é muito para absorver – suspirou Vítor, e por um instante ele realmente se pareceu muito com Bela, não apenas nas feições, mas no jeito de falar.

– O que vocês estão contando – começou Carmem com a voz trêmula de ultraje – Não é algo que minha filha faria. Não posso acreditar em tudo isso. Ela sempre foi perfeita, exemplar, bem-educada, amada… Nunca lhe faltou nada. Sempre foi muito quieta, mas era a personalidade dela…

– Carmem – a voz de Vítor era quase rude – Isabela tinha problemas. Apenas não queríamos ver. Ela não tinha de tomar remédios à toa. Ela tinha depressão. Pelo menos três psiquiatras nos disseram isso.

– Não, com certeza não foi por isso… Isso está errado, é inaceitável.

– Se fosse inaceitável, ela não estaria morta – cuspiu Vítor.

– Mas – começou ela.

– Sem mais, nem menos. O quanto antes aceitarmos isso, será melhor.

– Não está dizendo para simplesmente seguirmos em frente, está? Pelo amor de Deus, Vítor, é nossa única filha…

Eu e Ava nos entreolhamos, embaraçados.

Era nossa única filha – rebateu ele – Vocês dois, poderiam esperar lá em cima? Preciso conversar com minha mulher. – A voz era cansada.

Subi com Ava para meu quarto e esperamos por algumas horas, em silêncio, para que nos chamassem de volta. Quando o fizeram, Vítor disse que sentiam muito, mas que não poderiam mais me abrigar em sua casa, pois se lembrariam de Bela constantemente. Carmem estava com lágrimas em todo o rosto, e não nos dissera palavra, muito menos nos olhara. Vítor, por outro lado, parecia duro como pedra, mas estava tão abalado quanto sua esposa, apenas o demonstrava de forma mais racional. Pediu-nos também que levássemos a gata, pois não conseguiriam cuidar do animal por conta de seus trabalhos e rotinas, e completou sua fala dizendo que haviam decidido que o funeral seria dali a dois dias, assim como o enterro, e nos convidou para irmos prestar nossas condolências.

E foi dessa forma que me vi com uma mala aos meus pés e uma gata no colo, em frente à casa de Bela. Ava apoiou sua cabeça em meu ombro e a senti soluçar, então ela me perguntou com a voz fina, chorosa:

– Para onde você vai, agora?

– Não tenho a menor ideia – respondi a ela, envolvendo-a com um braço, tentando reconfortar a menina.

– Não posso te levar para casa. Nem Mel. Minha mãe tem alergia a gatos.

Eu sorri com amargura.

– Está dizendo que sou um gato? – perguntei automaticamente, sem emoção alguma.

Ela ignorou minha fala, e eu a compreendi por tê-lo feito.

– Eu posso ficar com Mel – falei.

– Pode tentar ficar na casa de Breno – Ava sugeriu – Ele tem vários quartos disponíveis. Inclusive, tenho de avisar os meninos sobre o que aconteceu…

– Acho melhor eu não tentar morar lá, Ava, eu mal o conheço, apesar de ter feito um favor a ele uma vez – disse-lhe – Tenho um plano um tanto cômico sobre meu paradeiro, na verdade.

Ela não perguntou mais nada quando terminei de falar, apenas devolveu o abraço que lhe dei, e nos consolamos por longos segundos, e em nenhum instante isso foi constrangedor. Ela molhou minha blusa, mas deixei que desabafasse por meio de seu choro. Depois dei uma carona para Ava até sua casa e, em seguida, segui meu destino.

 

Quando ele abriu a porta, pareceu surpreso:

Você?

Miguel estava com uma toalha nos ombros e um cigarro entre os dedos da mão que segurava uma xícara de café. Ele possuía grandes olheiras, e percebi que ele não havia conseguido dormir como fora a intenção.

– Eu já lhe disse o quanto seu cabelo azul é patético?

Miguel tentou fechar a porta e me deixar do lado de fora, mas eu a segurei quando estava prestes a bater e a empurrei para frente, o suficiente para pelo menos meu rosto ficar visível.

– Eu sei que temos nossas diferenças… Mas sofremos a mesma perda. Só eu entenderei você no mundo inteiro, e só você me compreenderá.

– Você nunca saberá o que se passou entre eu e Isa.

– Bela me amava tanto quanto amava você.

– Não fale dela no passado. – Miguel se desesperou, a voz falhando em algumas sílabas. Então respirou fundo e passou a mão nos cabelos. – Acho que isso não importa tanto assim, afinal, não é? Falando nela no passado ou no presente, ela nunca mais acordará. – Olhou para baixo quando terminou sua frase.

Então abriu a porta por completo e deu espaço para que eu passasse. Quando o fiz, ele a fechou e a trancou.

– O que você quer?

Mostrei-lhe a mala e a gata em meu colo, sorrindo para ele.

– Surpresa.

– Não – disse-me ele, enfático, bebericando seu café.

A gata, então, pulou de meu colo e correu até Miguel, esfregando-se em sua perna.

– Espere um instante… Essa é a Mel – ele arqueou as sobrancelhas. Agachou-se para falar com a gatinha cinzenta, passando a mão por seus pelos.

– Quando os pais de Bela me expulsaram de casa, também mandaram essa gata embora.

– Posso cuidar dela, mas não de você.

– Eu tenho um emprego, posso ajudar com as contas.

– Não preciso de ajuda para manter a casa.

– Mas precisará se for me abrigar.

– Definitivamente, não.

– Não posso ficar na casa de Ava, e também não ficarei com Breno ou Vlad, pois eu mal os conheço. Acredito que vamos nos dar bem, Miguel. Tenho de acreditar nisso. Você é, agora, tudo o que eu tenho.

Ele tragou em seu cigarro e parou de acariciar a gata, levantou-se e ficou frente a frente comigo.

– É isso que Isa gostaria que fizéssemos, não é? – ele sorriu com tristeza.

Parei por um instante, chocado com suas palavras.

– Acho que sim. Não, tenho certeza de que sim.

– Não nos falaremos e vamos nos evitar ao máximo – declarou ele – E você vai lavar suas próprias roupas e louças.

– Fechado. Não gosto mesmo de ver essa coisa azulada na sua cabeça – e estendi-lhe a mão.

Ele a apertou com suavidade, muito diferente de quando eu apertei a sua no instante em que nos conhecemos, cego pelos ciúmes como eu estava.

– Vai ser um período muito difícil – desabafou Miguel.

Eu não poderia discordar.

 

2. O leão e o lobo

 

Miguel e eu decidimos não ir ao funeral de Isabela. Primeiro porque Miguel não aguentaria se despedir de Bela. E segundo porque eu sabia que, apesar de ter sido convidado, os pais dela nunca mais gostariam de ver nem meu rosto, nem conhecer o de Miguel, mesmo que estivéssemos pintados de ouro. Resolvi respeitá-los. E, para somar aos meus argumentos, eu não queria ter de me lembrar de uma Bela pálida envolta em um caixão no velório, mas sim risonha e rosada, e muito menos queria ter gravado em minhas memórias a terra sendo posta pouco a pouco sobre o corpo de minha garota. Mais tarde fiquei sabendo, por meio de Miguel, que Ava, Breno e Vlad foram ao show fúnebre, e que Vlad estava tão bêbado – diz-se que para suportar a tristeza – que os dois amigos tiveram de ficar o segurando pela cintura durante todo o evento para que não caísse, de modo que os outros presentes não percebessem seu estado.

Então eu e Miguel, naquele dia, fomos até a Pedra do Arpoador, pois ele me dissera que aquele lugar era muito especial para ele e Bela e seria ali que ele poderia se despedir dela da forma com que ele sabia que ela gostaria. Havíamos nos tornado amigos rapidamente, violando nosso acordo inicial, em uma pura ironia do destino. Pois como eu havia constatado, apenas nós dois seríamos capazes de compreender a dor um do outro – desde os silêncios metódicos no fim da tarde e no meio da madrugada, até as horas na quais discutíamos sobre como Bela colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha quando estava acanhada, ou como sua risada às vezes lembrava um porquinho filhote. Mas as conversas sobre ela fluíam entre nós dois como se simplesmente fôssemos amigos dela, e poupamos os momentos românticos nos quais passamos ao lado de Bela para nossas próprias mentes, sabendo o limite de espaço do outro.

Percebi que Miguel, ao ver o pôr do sol na Pedra, sentiu vontade de chorar. Ele piscava constantemente, tentando fazer com que eu pensasse que a luz do sol era a causadora de sua expressão lacrimosa.

– Você pode chorar, se quiser. – Incentivei ele. – Não vou te julgar.

Ele se levantou e pensei que, por um instante, estivesse bravo comigo por ter sido tão sincero. Mas ele rodou no mesmo lugar, em um círculo viciante, como se Bela pudesse aparecer detrás de uma deformação da rocha ou mesmo das profundezas do oceano que nos cercava. Como percebi, meio tardiamente, que ele estava desesperado demais para chorar e aquela atitude meio idiota era na verdade o puro desespero, eu também me ergui e o segurei pelos ombros, fazendo com que ele parasse com seu rodopio.

– Ela gostaria que você fosse forte, agora.

– Se ela se importasse comigo, não teria feito o que fez – a voz era angustiada.

– Não fale besteiras.

– Eu sinto tanta falta dela…

– E pensa que eu não? Mas não podemos mudar o que aconteceu.

– É verdade que ela estava louca? – ele perguntou, do nada.

– Todos somos meio loucos.

– Ela devia estar se sentindo tão sozinha… Foi tudo minha culpa. – Seu lábio inferior tremeu ao concluir essa frase. Levou uma das mãos à testa, como se pudesse fazer com que seu raciocínio se tornasse mais sólido – Não poderia ter dado um tempo com ela.

– Não foi sua culpa. – Tentei fazer com que se sentisse melhor. – Bela nunca esteve completamente plena. Ela sempre teve de lidar com os fantasmas de seu passado. Apenas acreditamos que ela pudesse se sentir mais feliz estando ao nosso lado.

– Nós a enlouquecemos – ele insistiu na mesma tecla – Eu a matei.

– Pare de dizer bobagens. – Retirei as mãos de seus ombros, franzindo meu cenho.

– Você também é culpado.

– Eu? – ironizei, arqueando uma sobrancelha.

– Você também a matou, assim como eu. Em vez de disputarmos por ela, devíamos ter tomado conta de Isa. Eu sempre soube que ela nunca esteve bem, mas em vez de ajudá-la, eu tentei torná-la minha.

– Agora você está me assustando – cruzei os braços.

Era a primeira vez em dois dias em que Miguel dizia coisas tão amargas quanto estas. Ele nunca havia falado realmente sobre a morte de Isabela, apenas sobre os preciosos momentos nos quais ela estava viva. E, honestamente, seu raciocínio era um tanto confuso e mórbido.

Assim como seria o dela se ela estivesse em seu lugar.

Ele abriu a boca para protestar, mas as pessoas ao nosso redor começaram a aplaudir a descida do sol pelo horizonte. Muita gente sorria, feliz, em contraste à nossa postura. Uma criança, entretanto, deixou um balão que estava preso por um fio em sua mão voar e começou a chorar. Aquilo foi, de certa forma, reconfortante. Miguel olhou ao redor com raiva, fuzilando o pessoal à nossa volta, como se os repreendesse por ter cortado sua linha de pensamentos.

Quando eu comecei a rir, Miguel voltou seu olhar para mim, furioso.

– O que foi? – questionou, bravo.

– Você e Bela são tão iguais – eu disse, sem medo de sua reação – Você ficou furioso por terem atrapalhado sua fala dramática, assim como ela ficaria.

Ao ouvir minhas palavras, em vez de reagir com brutalidade, como era o esperado, por ter um pavio tão curto e mal conseguir ouvir o nome de Isabela sem reagir de forma melancólica ou mesmo animalesca, Miguel sorriu em concordância e deu uma tapinha amigável em meu ombro.

– Está certo, nós éramos iguais.

Então tornamos a nos sentar, menos deprimidos, e ficamos ali esperando que a noite subisse e tomasse conta do céu.

 

E uma semana se passou, e então outra, e mais outra. Inicialmente, meu plano era apenas passar uma temporada na casa de Miguel e então me mudar para outro lugar e permanecer sozinho. Mas sua presença foi se tornando cada vez mais necessária em minha vida, e em alguns instantes pensei que, talvez, se estivéssemos assim tão próximos enquanto Bela estava viva, talvez ela não tivesse se matado. Mas era apenas uma divagação e nada era concreto. Entretanto, havia no fundo de tudo isso a leveza de que, em algum lugar, Bela sorria de nossa inesperada amizade, feliz por sua morte ter resultado na união das duas pessoas que mais amara em sua curta vida.

Logo as semanas, por fim, se passaram, e três meses após a morte de Isabela eu ainda me encontrava no apartamento de Miguel. Miguel, ao contrário de mim, apesar de ter perdido ambos os pais, não reagia muito bem à morte de um ser querido, e sua depressão, muito parecida com a de Bela, atingira um nível maior. Eu o ajudava no que podia, e assim como eu me via na necessidade de mantê-lo por perto, ele também se via precisando de um amigo para consolá-lo e lembrá-lo de tomar os remédios certos, nos dias e horários corretos. Eu não aprovava essa conduta, na verdade. Não acreditava que se entupir de química laboratorial fosse levá-lo a algum lugar. Mas se aquilo lhe alimentava as esperanças, se aquilo o mantinha caminhando, eu não poderia deixar de incentivá-lo.

Mas foi no começo de maio que eu me surpreendi ao encontrar uma carta em meio à correspondência, vinda diretamente de Bath, Inglaterra, direcionada a Miguel. Tive de esperar que ele voltasse de seu cursinho – estava tentando entrar para a faculdade de Jornalismo, havia me dito – para entregá-la a ele. Quando ele tomou o papel, suas mãos tremeram e seus olhos brilharam um pouco, em contraste com o olhar geralmente opaco e vago que vinha tendo.

– Você fez alguma besteira? – perguntei, cruzando os braços e me encostando à parede da pequena e estreita cozinha.

– Não, eu… – suspirou ele, ainda com o envelope fechado em suas mãos – Eu mandei alguns poemas e crônicas para uma editora inglesa há alguns meses. Eles estavam procurando por escritores estrangeiros e aproveitei a oportunidade.

– Deveria me sentir rejeitado por você não ter me dito?

– Não pensei que eles responderiam…

– Você sabe que pode ser uma recusa, não sabe?

– Pare de ser tão pessimista, Serafim.

– Houve uma pequena inversão aqui. Quem é o pessimista, geralmente, é você.

Miguel revirou os olhos e rasgou, sem pressa alguma, o lacre da carta e a abriu. Seus olhos percorreram linha por linha, e então soube que a notícia era boa, pois ele abriu um enorme sorriso em seus lábios quanto terminou sua leitura.

– Serafim – a voz continha uma dose bem grande de excitação – Eles querem me contratar! Não só publicar uma obra, eles querem me contratar – repetiu.

– Oh, oh, oh, você leu isso direito? – perguntei, preocupado. Talvez ele tivesse batido a cabeça em algum lugar antes de chegar à própria casa e não compreendesse a verdadeira mensagem. Nunca gostei de seus poemas, de qualquer forma.

– Sim, sim, leia – e entregou-me o papel como se fosse feito de ouro.

Li o conteúdo, todo em inglês, e ele realmente havia sido aceito. Gostariam de contratá-lo para escrever, no mínimo, três obras, mas isso poderia ser discutido em um futuro contrato. Chamavam-no para ir trabalhar em Bath, próximo à sede da editora, e ofereciam a ele um salário muito bom. Ele deveria responder dentro de duas semanas, por e-mail ou telefonema. Se ele aceitasse, poderia partir em um mês se seu passaporte estivesse em dia. Diziam que estavam muito gratos por ter tido conhecimento de sua obra, e que ela era magnífica. Com relação a isso, eu possuía uma opinião adversa, mais ainda assim fiquei contente.

– Parabéns – congratulei-o.

Abraçamos-nos e dei tapinhas em seu ombro.

– Tudo o que escrevi foi para ela – exclamou ele quando nos separamos.

– Eu sei.

– Gostaria que ela estivesse aqui e visse essa notícia.

– Nós dois, irmão.

– Ela sempre gostou da Inglaterra. Queria poder levá-la.

Ele levou ambas as mãos ao seu rosto, como se não se conseguisse se conter. Olhou em meus olhos e sorriu abertamente.

– Isso é tudo o que eu queria.

– Só posso lhe desejar boa sorte – sorri para ele.

Quando ele parecia mais calmo, eu lhe disse:

– Há algo que preciso lhe contar.

E então eu fui ao quarto de hóspedes, onde eu dormia, e retirei de uma gaveta do armário o colar que eu dera à Bela. Abri o medalhão e me deparei com as duas fotografias, ainda meio manchadas de rosado pela água vermelha na qual haviam, um dia, boiado. Incrivelmente, ainda possuía o cheiro de flores de Bela e o também o odor metálico de seu sangue. Fiquei tonto, como se novamente estivesse encontrando seu corpo na banheira, mas reprimi o sentimento. Mas, apesar de todo o meu autocontrole, não pude deixar de fechar os olhos por um pequeno instante e tentar relembrar sua voz doce, agora já meio borrada em minha memória.

Quando tomei coragem o suficiente, retornei à cozinha e Miguel estava sentado, fumando um cigarro, relendo a carta com um sorriso um tanto imbecil nos lábios.

Mostrei-lhe o cordão, pondo-o sobre o papel, interrompendo-o.

Ele olhou de mim para o medalhão, e então para mim de novo.

– O que é isso?

– Era de Bela.

Miguel se silenciou e então seu sorriso desvaneceu. Os olhos se tornaram novamente embaçados. Mas era algo que eu precisava lhe mostrar, apesar da aura feliz e entusiasmada que envolvia o ambiente. Pois, se ele fosse embora, ele tinha de saber.

– Nunca a vi usando – rebateu ele, sem querer acreditar.

– Ela não o usava, pois namorava você e fora eu quem o dera a ela.

– Oh – fez ele. Pegou o pingente e o abriu com dedos fracos.

Ao ver as duas fotografias meio borradas, estremeceu.

– O que significa isso? – sua voz era fraca.

– Quando eu a encontrei na banheira, ela o estava usando, mas eu o tirei de seu pescoço antes de ligar para Ava. Você precisava saber disso antes de ir embora.

Miguel passou a mão no rosto e então nos cabelos, e sua respiração se tornou pesada. Deu mais um trago em seu cigarro, como se com esse gesto estivesse mais próximo da morte e com isso, mais perto de Bela.

– Isso explica porque as fotos estão manchadas.

– Sim.

Ele fechou o medalhão com um clique e me olhou no fundo dos olhos. Entregou o objeto para mim.

– Você deve mantê-lo. Foi você quem o dera a ela.

Assenti, entendendo sua intenção.

Ficamos nos encarando por alguns segundos, em compreensão mútua, relembrando nossas vidas, um dia tão conturbadas por conta de uma única garota.

Apenas uma garota, e também o amor mais forte e belo de nossas vidas.

 

E então, foi tudo como deveria ser. Miguel partira tão cedo quanto pôde para Inglaterra, seguindo seu destino, e deixando um nefasto e melódico passado para trás. Fui com ele até o aeroporto, e, para ser honesto, tive de me esforçar muito para não chorar. Pois, como havia dito, Miguel era a única pessoa que eu possuía após a morte de Bela. E vê-lo ir embora, por mais que devido a uma razão extraordinária, ainda fez com que meu coração se contraísse. Prometemos continuar mantendo contato, nos abraçamos e ele foi em direção à sala de embarque.

É claro que eu não poderia mais permanecer na sua casa, que fora alugada por um casal de idosos. Eles demonstraram interesse em adotar Mel quando visitaram o apartamento pela primeira vez, mas eu não poderia abrir mão da gata que um dia pertencera à Bela. Fora o animal e o colar, eu não possuía nada dela, e não gostaria de me desfazer dessas coisas tão especiais para mim, como se, ao mantê-las por perto, ela também pudesse estar.

Dessa forma, eu retornei para o Rio Grande do Sul, onde ficava a família de minha mãe e, também, meu pai de criação.

 

Já era, então, julho. Estava desacostumado ao clima do sul à essa altura, então quando cheguei a Porto Alegre eu estava tremendo por usar apenas uma blusa de mangas compridas e calças de um jeans grosso. Havia percorrido o caminho com minha moto, e demorei torno de uma semana para chegar a minha antiga casa. Para tirar as dúvidas, Mel veio presa sobre o bagageiro, abrigada em uma caixa de transporte para gatos.

Quando cheguei à mansão, vi com surpresa que ainda estava de pé, e que seu jardim estava muito bem cuidado. Estacionei a moto na entrada, ao lado do portão, mas levei Mel comigo, ainda dentro de sua caixa, para que não fosse roubada ou algo do tipo. Percorri tenso o caminho de cascalho que me direcionava até a porta da entrada – aquele caminho que costumava correr livre quando era apenas uma criança, mas que agora se assemelhava a um pesadelo vivo, reavivando lembranças nem tanto satisfatórias assim.

Respirei fundo antes de bater na porta. Quando o fiz, ao não ter uma resposta imediata, mudei de ideia virei para retornar à moto, já pensando em procurar a família de minha mãe. Mas antes que desse mais um passo, a porta foi aberta.

– Serafim?

Olhei para trás.

Não pude crer em meus próprios olhos.

– Mãe? – abaixei a caixinha de Mel, pondo-a ao meu lado. Pisquei algumas vezes, tentando fazer com que minha visão parasse de me trapacear. Belisquei-me. Mas minha mãe continuava ali, trajando um vestido branco e elegante que caía muito bem com seus cabelos negros e longos. Valentina estava perfeitamente sã e saudável – como se nunca houvesse passado por uma dificuldade, como se nunca houvesse sofrido abuso de seu marido. Ela sorria para mim, ternamente, e pude ver que ela também não conseguia acreditar na imagem que se postava perante ela.

Fui até seus braços estendidos e me entreguei em um abraço, sentindo como se possuísse novamente dez anos e estivesse retornando para casa após um longo ano letivo no Rio de Janeiro. Ela estava morna, como sempre estivera, e me senti instantaneamente reconfortado.

– Como você está viva? – perguntei-lhe em seu ouvido em um sussurro.

– Como você está vivo? Meu Deus, pensei que tivesse perdido você – e acariciou meu cabelo.

– Meu pai disse que você havia morrido…

– Faz mais de um ano que não lhe vejo – exclamou ela – Pensei que você estivesse morto ou algo pior.

– Onde você estava esse tempo todo? – eu quis saber.

– Entre, meu filho, temos muito a conversar – e se separou de mim, mas tomou minha mão, mantendo contato corporal comigo.

– Espere – disse-lhe, e retornei às escadas da entrada, tomando a caixa de Mel pela alça – Temos uma gata, agora.

Ela abriu novamente aquele sorriso, tão maternal e amoroso.

– Vamos, meu filho.

 

Nós fomos para a sala, e ela estava intacta, assim como o restante da casa que eu já havia visto nesse dia – os móveis de jacarandá estavam nos mesmos lugares onde sempre estiveram, assim como os quadros passados de geração a geração, e as luminárias e lamparinas presas às paredes, e os tapetes entre os sofás e nos corredores, e até mesmo os retratos de família sobre as mesas de centro, meio desatualizados por conta de minha abrupta ausência.

Ela pediu à uma criada, jovem e nova, que eu nunca antes havia visto, que nos trouxesse café e biscoitos em uma bandeja. Sentei-me ao lado de minha mãe, em um sofá vermelho-escuro.

– Quem começa a falar? – perguntou ela, risonha – Quem conta as novidades primeiro?

– Você – respondi, ansioso para ouvir sua história e, também, querendo repousar a minha, tentando assentar os pensamentos antes de dizê-los, de modo a soar coerente.

– Bom, como vou começar? – e levou um dos dedos ao queixo, pensativa.

– Comece desde o natal, o último dia em que eu te vi.

– Ah, bueno – fez ela – No dia seguinte ao natal, no ano retrasado, eu acordei bem tarde, porque havia bebido e chorado por muito tempo após sua briga com seu pai. Mas, ao andar pela casa à sua procura, fiquei sabendo pelos criados que seu pai havia trago uns homens para casa para te buscar, pouco antes de eu me levantar da cama, e que estavam de uniforme branco, mas eles nunca haviam visto uma roupa como essas antes e não souberam me dizer de onde esses homens vinham, nem para onde iam. Seu pai não me diria para onde haviam te levado, por mais que eu o chantageasse e gritasse com ele. Tentei recorrer à lei, mas Felipe ameaçou me matar. Eu estava tão frágil e assustada naquele tempo que não tentei fazer mais nada, pelo menos naquele período.

“Uns dois meses depois, eu estava desolada. Você era tudo o que eu tinha, e seu pai havia sumido contigo. Mas minha mãe e minha irmã apareceram, em uma visita surpresa, e acabaram flagrando o estado de cárcere no qual eu vivia, pois ao não avisarem sobre sua aparição, Felipe não tivera tempo de preparar o circo. Elas se compadeceram, para meu espanto, e me ajudaram, indo contra todos os seus valores tradicionais e seus conceitos sobre matrimônio. Imediatamente empacotaram uma mala minha com uns poucos pertences – não todos, apenas uma muda de roupas, alguns documentos e umas fotos. Deixei as joias para trás, e também outras coisas importantes…

“Felipe estava tão bêbado que mal percebeu o que se passava. Quando atravessamos a porta com a mala, ele finalmente entendeu que eu estava sendo levada embora, e ficou muito agressivo, gritando com nós três. Minha irmã mandou ele se danar e fechou a porta em seu rosto, e quando me lembro disso, ainda tenho vontade de rir. Elas, juntamente com seus maridos, me ajudaram a me curar do alcoolismo, sem precisar me levar a uma clínica especializada. Passei a morar com meus pais, ainda aqui na cidade, mas distante o suficiente de Felipe. Estranhei por não ter me procurado, mas ele estava tão mentalmente doente que eu não fiquei tão surpresa. Não tentei me divorciar dele, nem nada. Apenas impus uma distância razoável entre nós dois.

“Passei uns bons seis meses com minha família, mas senti constantemente sua falta. Com o apoio de sua avó, assim que me recuperei do vício, eu consegui retornar a essa casa e intimidar Felipe a contar seu paradeiro. Foi então que ele me disse que o havia mandado embora, para bem longe, para onde você merecia estar, mas não me disse onde ficaria esse lugar, nem qual era, por mais que eu o pressionasse. Eu entrei em desespero. Mas eu não quis punir Felipe pelo que havia feito, não com a lei, pois ele já estava sendo punido por seus próprios atos – estava perdendo todo o seu dinheiro com os jogos e metade dos criados haviam se demitido pela falta de pagamento. Felipe estava em plena decadência – tossia constantemente, e também mal me reconhecera quando fui abordá-lo. Vou lhe confessar que me senti um tanto feliz por vê-lo naquele estado, por conta de todo o mal que havia nos feito.

“E eu passei, então, muitos meses procurando você, mas não recorri à polícia, ainda com um leve medo da ameaça de Felipe, e acreditava que eles não ajudariam em muita coisa, apenas colocariam sua foto na televisão e pronto. Fui a todos os abrigos no Brasil que pude encontrar, e também a centros de adoção e até presídios, mas seu nome não constava em lugar algum. Só depois de uns seis meses, em fevereiro desse ano, quando eu estava na Bahia, foi que pensei na possibilidade de lhe buscar em sanatórios. E encontrei seu nome na lista de pacientes em um deles, bem próximo daqui dessa casa, mas você já havia sido liberado há dois meses. Então, seu rastro foi apagado. Não sabia para onde você havia ido.

“Voltei para cá, e disse a Felipe que havia descoberto onde você estava durante todo aquele tempo. Ele havia me dito que esperava que você morresse naquela clínica, e ficou repetindo isso, como se você ainda estivesse naquele lugar, e não importava quantas vezes eu tentasse lhe dizer que você havia sido liberado, ele continuou balbuciando aquela mesma linha de pensamentos.

“Então eu voltei para casa após essa jornada inútil. Não queria parar de procurar por ti, mas minha irmã me dissera que era inútil e me convenceu, pouco a pouco, a parar de fazê-lo. Contra a minha vontade, eu parei as buscas. Mais ou menos em abril desse ano, fiquei sabendo que Felipe havia morrido. Não fora em consequência de sua doença mental, tampouco de uma doença pulmonar. Fora apenas um infarto. E meu nome constava em seu testamento vital, que fora feito no ano em que você nascera. A casa, assim como todos os outros bens materiais, foram passados para mim. Consegui pagar a hipoteca da casa com ajuda de minha mãe e pouco a pouco fomos recuperando tudo o que aquele desgraçado perdera. Mas ainda assim, eu não estava completa.

“Uns dois meses se passaram, e agora você está aqui, ao meu lado, quase um milagre, e nada poderia me fazer mais feliz” concluiu ela, sorrindo.

– Isso explica muita coisa – disse a ela, quando ela terminou de narrar os acontecimentos.

Só então o café com biscoitos apareceu, em uma bandeja de prata, nas mãos da nova empregada. Ela descansou o lanche sobre a mesa à nossa frente, nós a agradecemos e então ela retornou à cozinha.

Chegou minha vez de lhe contar o que havia acontecido comigo. Respirei fundo e comecei a falar, e uma vez que o havia feito, ela não me interrompera, assim como eu não a havia atrapalhado. Contei sobre como eu passara maus bocados no sanatório, e que eu retornara a casa onze meses depois, e que nesse dia meu pai dissera que ela havia se matado com um tiro, e que nem pensei em visitar a família dela para uma confirmação, pois ele fora muito enfático ao me contar a mentira. Contei a ela sobre como, impulsivamente, eu pegara a carta – e que descobrira, por meio dela, não ser filho de Felipe –, o colar e a agenda de seu quarto e percebera, alguns dias depois, que a família de meu pai estava na trajetória de minha fuga, no Rio de Janeiro. Contei a ela sobre como eu ligara para meus tios e que, como eles estavam viajando, conversei, então, com Bela, e que fora imediatamente de São Paulo para o Rio ir morar na casa dela, pois a garota havia consentido. Disse-lhe tudo, absolutamente tudo o que acontecera enquanto eu permaneci morando com minha Isabela – todas as brigas, Miguel e seu cabelo ridículo, o suicídio dela e a temporada que passei morando com Miguel, então meu melhor amigo, quase um irmão. Quando terminei, mais ou menos duas horas haviam se passado, e fora uma narrativa muito mais longa do que a que ela havia feito, mais detalhada. Ao mesmo tempo em que eu verbalizava os meus pesares, eu também sentia que desabafava.

– Meu filho – exclamou ela, soltando o ar, como se o estivesse prendendo por muito tempo – Sinto muito por ter de ouvir uma história como essa.

– Poderia ser pior. Você poderia estar realmente morta.

– Parece que deixamos nossas vidas se perderem uma da outra por conta de Felipe, não é mesmo? – perguntou ela, com a voz carregada de pesar.

– Não podemos pensar assim…

– Seu pai – começou ela – Ele faleceu no ano em que você nasceu. Por isso eu guardei a carta. Não fazia sentido mandá-la.

– Quem ele era? – questionei, curioso.

– Seu nome era Serafim, assim como o seu – respondeu– Ele morreu em um acidente enquanto fazia alpinismo na Suécia. Ele era um aventureiro, assim como você.

– Sim – arqueei as sobrancelhas, enquanto pegava um biscoito da bandeja e o mordia – Foram muitas aventuras, na verdade.

– Parece que agora temos a chance de recomeçar, não é? – fez ela, puxando-me para seu colo. Deitei-me e apoiei a cabeça sobre suas pernas enquanto ela passava a mão em meus cabelos.

– Nunca vou deixar meu passado para trás. Nunca vou me esquecer de Bela, nem de Miguel.

– Eu sei que não. Mas vamos poder ser felizes, agora.

– Quem sabe? – perguntei.

Naquele momento, eu retirei o colar que pertencera tanto à minha mãe quanto Bela, que estava no bolso de minha calça. Eu segurei o medalhão e o encostei em meus lábios. O metal estava frio, assim como deveria estar o corpo de Isabela.

– Ela gostaria que eu fosse feliz – respondi minha própria pergunta em um murmúrio.

Assim, fechei os olhos. Minha mãe começou a cantarolar suavemente uma música que costumava cantar para mim quando eu era criança. O peso de meu passado foi pouco a pouco se esvaindo de minha consciência, e tão logo me senti pleno, cochilei, e meus sonhos foram repletos de paz e luz. Eu estava em casa, finalmente, e poderia relaxar, sem medo de que, no dia seguinte, algum evento nefasto ou uma separação abrupta fosse me tomar de surpresa.

E dormi, seguro como não havia me sentido há mais de um ano.

 

 

Epílogo

 

Eu estava sozinho, sentado em um banco de madeira tingido de branco no jardim de minha mansão, quando Marisa, a mesma empregada que entregara biscoitos com café em uma bandeja no dia de minha chegada, há três meses, apareceu em seu uniforme clássico e me entregou um pacote.

– Acabou de chegar para o senhor, foi o carteiro quem trouxe isso – sorriu ela timidamente, cruzando as mãos sobre o avental.

– Obrigado, Marisa – a agradeci – Pode voltar para casa.

Ela assentiu e retornou aos seus afazeres, percorrendo a trilha de cascalho que a levaria em direção à porta dos fundos.

Eu estava acordado desde o dia anterior, e não havia pregado os olhos por mais de um dia. Nos últimos tempos, eu vinha tendo problemas com insônia – quando estava prestes a dormir, eu me sobressaltava, ouvindo a risada de Bela no fundo do quarto, ou o chamado desesperado de Miguel vindo do corredor. Esses sonhos não sonhados vinham me perseguindo constantemente, mas ao mesmo tempo em que eu me desesperava por tê-los e não conseguir retornar à cama uma vez que eu os tinha, eu agradecia à minha própria mente por não deixar que os acontecimentos do começo desse ano tenham se desgarrado de mim com tanta facilidade.

Ao ver o pacote, embrulhado em papel pardo, percebi que era um tanto quanto pesado. Estava em formato retangular, como um livro. Ao virar o objeto em minhas mãos, li e soube, através de um selo, que vinha diretamente de Bath, Inglaterra, para meu endereço. Sorri com a perspectiva do que estava contido ali. Rasguei o papel e me deparei com o esperado – era um livro, em inglês, escrito por Miguel Azevedo. A capa era azul e as letras eram brancas, rebuscadas. O nome da obra, uma coletânea de poemas, crônicas e contos, se chamava – traduzido para o português bruto – Vapor de Água.

Abri o livro e, na parte interna da capa, havia uma mensagem para mim.

“Serafim” dizia a letra fina e alongada “Queria mandar a versão traduzida para você, mas assim que vi a primeira remessa deste livro pronta, eu quis te mandar um exemplar imediatamente, em um impulso. Tudo o que está aqui dentro foi escrito enquanto Isa ainda estava viva, com exceção de um ou dois contos, que fiz quando você ainda morava comigo. Espero que goste, e que nunca se esqueça de nossa amizade. Sinto sua falta todos os dias. Não hesite em vir me visitar na Inglaterra”.

“Com amor, Miguel”.

Virei a página em busca do primeiro conto, ou do primeiro poema. Mas, antes disso, havia uma dedicatória – dessa vez não escrita à mão, mas impressa, em inglês. O livro fora escrito em homenagem à Isabela Garboci (1995-2014). Passei o dedo sobre as letras de seu nome, na esperança de que pudesse fazer com que as duas palavras que compunham Bela fossem se transformar em minha garota.

Fechei o livro, fraco demais para continuar a leitura. Repousei-o sobre meu colo e olhei ao redor, com os olhos um tanto apertados por conta da claridade. Era um dia extremamente primaveril, e os arbustos e árvores ao meu redor estavam repletos de flores coloridas. Imaginei como Bela estaria naquele cenário se pudesse vir me visitar. Com certeza ela roubaria uma das rosas brancas que estavam próximas a mim e a prenderia em seus cabelos. Sorriria em seguida, com as bochechas rosadas. E diria que me amava.

Concluí, em um pensamento súbito, que ela era o oposto de mim mesmo, e por isso éramos tão iguais – tão semelhantes quando Bela e o próprio Miguel eram por sua mesma essência. Talvez isso que tenha sido o real motivo de seu suicídio; Talvez Bela estivesse tão dividida entre duas partes dela mesma que aquilo desencadeou uma brusca procura por uma fuga da realidade, uma fuga de si. Mas eu nunca saberia da verdade, ela nunca mais falaria comigo.

Mas não importava, agora. Não poderia mudar o passado. Tudo o que eu pensava, com relação à nossa tragédia, era que gostaria que Bela estivesse bem, onde quer que fosse o lugar em que se encontrava. Não poderia saber se estava no céu, em um limbo, ou se simplesmente sua mente evaporara do mundo. Mas gostava de pensar que Bela morava dentro de mim e também de Miguel, que era ela quem nos mantinha vivos a cada dia, a cada pensamento. E dali a sessenta anos, mais ou menos, quando eu e ele estivéssemos velhos o suficiente, com ou sem uma nova família, nós morreremos com um suspiro tranquilo. Porque Bela velara por nós por todo esse tempo. E, sorrindo, eu me juntarei a ela.

E então nós seremos jovens para sempre.

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